Opinião: Pois, pois, dantes era o ozono agora é o clima…
Biólogo
Há um recrudescimento surpreendente da virulência do sector negacionista no pacote desinformativo. Comentadores nas têvês e uma legião nas caixas de comentários de qualquer notícia. Lesta e agressiva no ataque a quem protesta e se desinteressa pela inoperância de quem governa. E, entre as falácias repetidas lá vem a frase do título, acompanhada por, «Nunca mais ninguém falou do Buraco do Ozono, já viram?».
Porque é que nunca mais se falou no Buraco do Ozono?!. O Buraco do Ozono é identificado na década de oitenta, especificamente em 1985. Uma surpresa. Há um interesse imediato. Uma missão científica confirma o relatado. Uma comunicação premente. Os cientistas divulgam, fazem conferências, ao público. A imprensa acompanha, divulga, pergunta, entrevista. Os cientistas modelam, se nada for feito haverá um colapso da camada até 2050, com efeitos nefastos nos ecossistemas e na vida como a conhecemos.
Colapso?! Não seria dramatismo? A resposta é simples: antes de existir camada de ozono não havia vida no ambiente terrestre, os únicos organismos vivos estavam limitados aos oceanos.
E porquê? Porque a radiação ultravioleta, especialmente raios UVB e UVC são letais, usados até como forma de esterilização. Surgem as algas marinhas capazes de fazer fotossíntese, processo que tem como «resíduo» o O2. E o O2 esvai-se para a atmosfera e acumula-se e os raios UV partem o O2 e reconfiguram-no em O3, o ozono um filtro inultrapassável aos UVB e UVC. Nasce,a camada de ozono que permite a colonização dos habitats terrestres.
Uma simples diminuição de um terço dessa camada e plantas há que não conseguiriam sobreviver, especialmente plantas das quais nos alimentamos. Mesmo um aumento negligenciável de radiação UV aumenta a incidência de cancros de pele como sabemos. Ora um colapso, digamos perda de um terço da espessura da camada, seria sim nefasto para a nossa vida.
As pessoas percebem, exigem e pressionam. Os políticos então agem. As causas são identificadas, gases CFC, cloro-flúor-carbono. São extremamente reactivos em cadeia com o ozono destruindo-o. São gases então usados em aerossóis (sprays) e equipamentos de referigeração. Em todo o Mundo.
Há acção imediata, logo em 1987 estabelece-se o Protocolo de Montreal, que prevê o faseamento da interdição de gases que afectam o ozono. Em 1988 os CFC estão proibidos. O protocolo é assinado por TODOS os países do Mundo. É o único tratado internacional em que isso aconteceu até hoje. O protocolo inclui medidas de apoio financeiro dos países mais ricos aos países com maior dificuldade e que não conseguiriam, por si, respeitar as metas.
E sim, há resultados. A quebra de emissão desses gases é imediata. Em 1989 era já negligenciável. Por volta de 2005 o «Buraco do Ozono» tinha parado de crescer. Actualmente a camada de ozono está a recuperar espessura e estima-se que em 2065 recupere totalmente para os níveis anteriores à crise.
Sim, a crise do «Buraco do Ozono» é relevante, mas no sentido diametralmente oposto ao propalado pelos negacionistas. Os cientistas foram ouvidos, a comunicação social noticiou, os activistas não foram vilipendiados, os cidadãos pressionaram e os políticos agiram.
Vale a pena realçar a cronologia: 1985 observação, confirmação e alerta; 1987 Protocolo de Montreal; 1988 proibição de CFC; 1989 queda de CFC libertados; 2005 Paragem da perda de ozono; 2015 início da recuperação da camada; 2065 (estimativa) recuperação total.
No clima era preciso determinação idêntica.

