diario as beiras
opiniao

Opinião: Platão e a IA

11 de julho de 2025 às 10 h03
0 comentário(s)

“Era o melhor dos tempos, era o pior dos tempos”.

É assim que começa Charles Dickens o seu Conto de Duas Cidades, onde retrata toda uma época de contrastes, em Londres e Paris durante o período da Revolução Francesa, quando a esperança e o colapso andavam de mãos dadas. Esta frase de entrada é famosa por caraterizar tantos momentos da história, e também este nosso tempo. Vivemos uma era de avanços extraordinários, em que o conhecimento parece ao alcance de todos e a inteligência artificial (IA) promete transformar a forma como aprendemos, comunicamos e pensamos. Mas, se nunca tivemos tanto acesso à informação, talvez nunca tenha sido tão fácil parecer que sabemos, sem realmente sabermos.

Resgato um outro texto clássico: no Fedro, um dos diálogos mais instigantes de Platão, lemos uma história antiga que lança uma luz inesperada sobre o presente. O filósofo recupera um mito egípcio: o deus Toth, inventor da escrita, apresenta a sua criação ao faraó como um dom ao dispor da humanidade. “Eis, oh Rei, uma arte que tornará os egípcios mais sábios e os ajudará a fortalecer a memória, pois com a escrita descobri o remédio para a memória”. Mas, de forma inesperada, o rei recusa a oferta com um aviso inquietante: “Ela tornará os homens mais esquecidos, pois que, sabendo escrever, deixarão de exercitar a memória, confiando apenas nas escrituras, e só se lembrarão de um assunto por força de motivos exteriores. (…) Hão de parecer homens de saber, embora não passem de ignorantes em muitas matérias e tornar-se-ão, por consequência, sábios imaginários, em vez de sábios verdadeiros!”

Dois milénios depois, o dilema permanece. Hoje, não é a escrita que suscita inquietação, mas a inteligência artificial generativa, que encontramos em ferramentas como o ChatGPT. Tecnologias que escrevem textos, que respondem a perguntas, simulam conversas e resolvem problemas com uma fluência impressionante. O melhor dos tempos. A promessa é semelhante: o aumento do alcance da mente humana, a democratização do acesso ao saber, a aceleração da aprendizagem. Mas, também hoje, não podemos deixar de perguntar, como o faraó, qual o preço desta aparente sabedoria.

Na verdade, a crítica de Platão não se dirigia ao progresso. Pretendia sobretudo ser um grito de alerta a favor do pensamento vivo: daquele pensamento que se gera no diálogo, na dúvida, na lentidão da reflexão. A escrita mais não seria que uma forma falsa da conversa verdadeira, incapaz de responder, de se corrigir, de aprofundar.

Podemos estender esta mesma crítica ao uso superficial da IA: confiamos nela para elaborar textos, para resumir livros, até para preparar aulas. Mas que tipo de relação com o saber estamos a construir? Na verdade, passa-se com a IA algo semelhante ao que ocorreu com outras invenções, desde a internet, ao telefone ou à escrita: nenhuma ferramenta é boa ou má por si. A resposta encontra-se no uso que lhe damos. Podemos usá-la como um instrumento poderoso de apoio ao pensamento ou como um atalho perigoso para a ilusão do conhecimento. Hoje, como há mais de dois milénios, o essencial é o mesmo: pensar, duvidar, discernir, aprender a aprender.

Reflexões sobre este tema estiveram em destaque ontem, no Congresso de Ciências da Comunicação, organizado na ESEC, sob o tema “Desafios da Comunicação na Era da Inteligência Artificial”. Vivemos o melhor dos tempos, em que um novo Toth nos oferece uma arte que nos tornará “mais sábios”. Que fazemos com ela: aprendemos mais ou pensamos menos? Cabe-nos, como outrora ao rei, decidir se a aceitamos sem reservas, ou se a olhamos com a prudência de quem sabe que não há sabedoria sem esforço, nem conhecimento verdadeiro sem pensamento crítico.

Autoria de:

Gil Batista Ferreira

Deixe o seu Comentário

O seu email não vai ser publicado. Os requisitos obrigatórios estão identificados com (*).


Últimas

opiniao