Opinião: O roseiral da Rainha Santa Isabel
O Movimento Rotário está de parabéns pela parceria estabelecida com a Câmara Municipal de Coimbra na criação e inauguração de um “Roseiral da Rainha Santa” no dia 25 de Maio último, 400 anos depois da sua canonização por Urbano VIII, em 1625. Com efeito, o Rotary Club de Coimbra Olivais, a que se associaram mais doze Clubes Rotários e um Rotaract, em parceria com a Câmara Municipal de Coimbra e com o patrocínio de várias empresas, conseguiram perpetuar, ou pelo menos tornar bem visível e relembrar a Coimbra, a relação entre o Mosteiro de Santa Clara-a-Velha e a lenda do “milagre das rosas”, nessa área ocorrido e atribuído à padroeira de Coimbra, a Rainha Santa – Isabel de Aragão, mulher do rei D. Dinis.
Tal roseiral, pela sua simbologia, não teria qualquer sentido nascer noutro local de Coimbra, mesmo que fosse em Santa Clara-a-Nova, muito embora aí esteja o túmulo da Rainha Santa. Com efeito, o Mosteiro de Santa Clara-a-Nova só viria a ser construído cerca de trezentos e tal anos depois do “milagre das rosas” e o corpo da Rainha Santa só então para aí transladado em 1677, quando do abandono do velho Mosteiro que progressivamente ia sendo invadido pelas cheias do Rio Mondego. Aliás, foi a própria Isabel de Aragão, que após a morte do marido, D. Dinis, vestiu o hábito da Ordem das Clarissas mas sem nunca ter professado, que, por testamento, disse querer alí ser sepultada.
A este propósito, a Igreja do Mosteiro de Santa Clara (hoje “Santa Clara-a-Velha”) foi mandada construir em 1316 por Isabel de Aragão no local onde em 1296 teria sido construído um pequeno mosteiro dedicado a Santa Clara e a Santa Isabel da Hungria – tia-avó de Isabel de Aragão. É provável que tenha sido esta ligação à sua tia-avó (de quem, até o nome tinha herdado) que a tenha levado àquela construção da Igreja de Santa Clara (ainda por cima nas proximidades de um primitivo Convento de S. Francisco, dos frades mendicantes), e à sua dedicação a Coimbra.
Ainda a propósito, note-se que a sua tia-avó, Santa Isabel da Hungria, se notabilizara pela sua pobreza voluntária após a morte do marido, pela fundação de hospitais e hospedarias e pela sua vida modelar de dedicação caritativa aos pobres e aos doentes. Inclusivamente, sobre Ela se conta também uma lenda muito semelhante à do “milagre das rosas” de Isabel de Aragão. Talvez também por essa devoção pela tia-avó, quando da restauração do velho mosteiro e construção da Igreja de Santa Clara a Rainha Santa, Isabel de Aragão, mandou construir um hospital para trinta pobres com um cemitério e capela e um Paço onde se recolheu quando em 1325 enviuvou. Curiosamente, esse Paço viria a ser habitado mais tarde por Pedro e Inês e é de notar que a Rainha mandou fazer um canal da Quinta do Pombal (hoje Quinta das Lágrimas) para transportar a água para o velho Convento de Santa Clara, saindo a água da fonte que hoje se chama “Fonte dos Amores”, fonte a que se tem acesso por um arco ogival gótico que ainda hoje existe.
Motivados pela “Inauguração do Roseiral da Rainha Santa”, estes breves comentários sobre a vida das duas Santas, Isabel da Aragão e sua tia-avó Isabel da Hungria, que nem sempre foram olhadas em conjunto nas semelhanças e paralelismos que as levaram à santidade, foram também mulheres interventivas para o seu tempo, na fundação de hospitais, misericórdias e até intervenções na política de então, ou seja, na procura da concórdia, da paz. Isabel de Aragão morreu em Estremoz no dia 4 de Julho de 1336 (por isso, o dia 4 de julho ser hoje o “dia da cidade de Coimbra”), quando de uma viagem a Castela na procura de um apaziguamento entre os dois reinos!…
A crença religiosa e a intervenção social deram os seus frutos junto das comunidades … e o Movimento Rotário e a Câmara Municipal de Coimbra quiseram recordá-los.
