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Opinião: O povo não dorme

20 de outubro de 2025 às 10 h57

Na Suíça, há um gesto antigo que ainda hoje impressiona quem acredita na democracia apenas como ritual de quatro em quatro anos. Chama-se Landsgemeinde: uma assembleia popular a céu aberto onde os cidadãos levantam a mão para decidir sobre leis, impostos ou regras locais. Não há intermediários, não há discursos de encantar plateias, não há a distância cómoda entre governantes e governados.

Há pessoas, de rosto visível, a decidir em conjunto o rumo do seu território. Esta simplicidade, quase desarmante, encerra uma lição que ultrapassa os Alpes. Mostra que a maturidade política de um povo se mede menos pela frequência com que vota e mais pela consciência com que o faz. Na Suíça, o eleitor sabe que o voto não é um cheque em branco, é um contrato que pode ser revogado, um dever de vigilância permanente.

Por cá, nas nossas cidades, há sinais de que essa mesma maturidade começa a florescer. Sem grandes proclamações, o eleitorado parece mais atento, menos crédulo, mais disposto a mudar o rumo quando sente que o poder se afasta do propósito. Foi isso que se sentiu, discretamente, em Coimbra. Uma escolha serena, mas firme, como quem recorda que a confiança é um bem escasso e que o poder, quando se repete sem se renovar, tende a tornar-se ruído. Não é preciso falar de eleições para perceber o que se move.

Basta observar o pulso das ruas e redes, o olhar e opinão exigentes de quem já não se deixa convencer por fórmulas gastas. O cidadão moderno quer proximidade, clareza, coerência. Quer menos espectáculo e mais substância, ou na gíria local, menos bolas pra Sereia e mais trabalho. Entre o meu país de residência e a minha cidade de origem há esta ponte silenciosa: a da sabedoria popular.

Aquela que não se ensina, mas se aprende com o tempo. Aquela que distingue a mudança pelo desejo da mudança pela necessidade. Porque, afinal, o povo não dorme, apenas observa. E quando desperta, não o faz com barulho, mas com propósito. E é então que as cidades mudam de rumo, e a democracia respira de novo.

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