Opinião: O Musk, o Almirante e o Choupal
Aparentemente não parece existir qualquer relação entre o megalómano bilionário americano, Ellon Musk, a nóvel vedeta política portuguesa, Almirante Gouveia e Melo, e a Mata Nacional do Choupal, sita em Coimbra. Dias distópicos – como os atuais – poderiam justificar que o ex-Marinheiro estaria agora ao serviço do mais recente “influencer” de Trump, pronto para dizimar o “pulmão de Coimbra” e ali construir uma fábrica de Arrufadas com inteligência artificial.
A coisa é, porém, mais séria! Infelizmente, não precisamos de apelar à imaginação para estabelecer uma relação entre os três elementos que titulam este texto.
Como é sabido – e a procissão ainda vai no adro! – o poder económico de Musk abriu-lhe as portas – via Trump – ao poder político, conferindo-lhe uma capacidade desproporcional de influenciar a opinião pública e até mesmo moldar políticas públicas. O controle de plataformas como o X/Twitter, por exemplo, já impactou o discurso público, resultados eleitorais e as democracias, fruto de manipulação no acesso à informação e ao debate. Isto é, Musk já mostrou ao que veio: desconstruir as democracias liberais como as conhecemos há muitas décadas, tendo por detrás interesses económicos perversos, e enfraquecendo políticas públicas essenciais para a proteção dos direitos sociais e das liberdades civis.
É aqui que entra o Almirante. Sem conhecermos uma ideia do que pensa sobre temas essenciais para a vida dos portugueses. Sem lhe termos alguma vez lido ou ouvido opiniões sobre o sistema político, a economia, a saúde, a educação ou até mesmo a segurança e defesa nacionais surge em primeiro lugar em todas as sondagens. É (supostamente) o preferido dos portugueses para próximo Presidente da República. Ou seja, uma mudança radical de paradigma: a aparência de autoridade, de corte com os políticos tradicionais e de distanciamento face à coisa pública parece gerar vantagem e atrair o eleitorado português. O Almirante não é do sistema e os portugueses estão fartos do sistema. Não importa o que pensa, importa apenas a percepção de que vem para mudar.
E isso tem alguma razão de ser, sendo o Choupal, em Coimbra, um bom exemplo. Entre muitos outros. Por décadas, autoridades locais e nacionais não se conseguiram entender para fazer daquele manto verde um elemento central da qualidade de vida urbana, oferecendo uma série de benefícios ambientais, sociais, psicológicos e económicos para os habitantes de Coimbra.
Além das evidentes vantagens ambientais, o Choupal não tem adequados espaços desportivos, de lazer e convivência, não é inclusivo nem acessível socialmente, e nunca foram pensadas as respetivas vantagens económicas e turísticas. E existem tão bons exemplos por esse mundo fora.
Compreende-se, pois, que haja quem esteja farta disto tudo; e se deixe influenciar pelo algoritmo do Musk e pela aparência do Almirante. Ainda assim, eu não!
