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Opinião: O Grito

24 de janeiro de 2025 às 11 h01
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Na capa do Público de 9 de janeiro, a boca aberta de Donald Trump domina. Não se trata de um retrato convencional, mas de uma construção deliberada, onde o rosto é parcialmente ocultado para centrar a atenção no gesto vocal e na simbologia que o acompanha. A gravata vermelha, quase flamejante, reforça a ideia de poder, enquanto o ângulo fechado e a ausência de contexto humanizam e desumanizam ao mesmo tempo. Esta imagem não mostra um homem; mostra uma força, uma ideia, um confronto.
O título – “Ataque à NATO e à UE” – e o subtítulo – “Trump admite uso da força para controlar a Gronelândia” – não são neutros. A linguagem bélica introduz uma abordagem que transforma a notícia em narrativa e o político em antagonista. Trump é apresentado como ameaça, como voz que “grita”, como agente de desordem numa ordem internacional já frágil. A imagem amplifica esse discurso. A boca aberta sugere retórica inflamada, mas também agressividade primitiva, uma espécie de regresso às bases do poder pelo domínio do verbo e da força.
A escolha de palavras, alinhada com o enquadramento fotográfico, vai além da informação. É uma moldura em estado puro que dá sentido e orienta o entendimento do leitor, ao inserir emoção e juízo na forma de relatar factos. A palavra “ataque” carrega uma carga de violência e de urgência; “uso da força”, associado à Gronelândia, evoca imagens de imperialismo desmedido. Tudo é feito para levar o leitor não apenas a compreender, mas a sentir: indignação, receio, repulsa.
Há, no entanto, algo mais. A paleta de cores da imagem – vermelho, azul, branco – invoca a bandeira americana, e posiciona Trump como a representação de uma América vasta, mas também simbolicamente expansiva. Sugere que o líder não é apenas um indivíduo, mas uma encarnação de valores que se confrontam com o resto do mundo: o nacionalismo exacerbado, o pragmatismo sem freios, a força enquanto instrumento diplomático.
Esta capa é mais do que jornalismo; é um artefacto cultural que sintetiza o momento político global. Ao reduzir Trump à boca que grita e à gravata que domina, enfatiza a ideia de excesso, de um líder que atua como uma força disruptiva. Contudo, a mensagem revela também os limites da crítica mediática: ao caricaturar, toma posição, reforça estereótipos e, de certa forma, transforma o próprio discurso jornalístico numa espécie de espetáculo.
No final, não sabemos, de forma precisa, o que foi dito – recordamos o que foi gritado. E é isso que permanece: a força, o confronto, o poder bruto. Não é apenas Trump que está em questão; é tudo o que ele simboliza. Para uns, a promessa de um poder restaurado; para outros, a ameaça de um mundo em colapso.
Em O Grito ( 1893 ), icónico quadro do norueguês Edvard Munch, uma figura humana expressa e absorve, num único gesto, o pânico do mundo que o rodeia. De modo semelhante, a boca aberta de Trump pretende ser mais do que uma emissão de som: sinaliza o eco de uma época, o reflexo do tumulto e do vazio que habitam o nosso presente coletivo.

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