Opinião: O elefante na sala também
A edição deste ano dos Óscares tinha tudo para ser muito política. Na luta por uma estatueta tínhamos, entre outros, um filme sobre Trump e outro sobre a ditadura brasileira, um documentário sobre o conflito israelo-palestiniano e uma mulher transexual nomeada. A hostil receção de Trump a Zelensky, na Sala Oval da Casa Branca, tinha apenas 48 horas e o mundo estava, ainda, chocado e incrédulo. Não faltava material para fazer dos Óscares muito mais do que Cinema. Mas ficámos pelo glamour da cerimónia. O espetáculo acabou, desligámos a televisão e apagámos a luz, para o elefante na sala adormecer confortavelmente.
Na corrida tínhamos “The Apprentice”, uma obra claramente política, que nos conta como o jovem Donald Trump começou o seu negócio imobiliário em Nova Iorque nas décadas de 1970 e 80 (filme que o próprio presidente americano tentou impedir que chegasse às salas de cinema). Tínhamos o filme brasileiro “Ainda Estou Aqui“, de Walter Salles, um hino à luta pela liberdade, inspirado na história verídica do deputado Rubens Paiva, que desapareceu às mãos da Ditadura Militar brasileira. Tínhamos, ainda, nomeações de filmes como o “The Brutalist”, sobre a história de um judeu húngaro que tenta adaptar-se a uma nova vida nos EUA, depois de deixar uma Europa devastada pela guerra e pelo horror do nazismo; o “Nickel Boys”, inspirado no romance homónimo de Colson Whitehead (que recomendo muitíssimo), sobre o passado racista dos EUA; ou o documentário “No Other Land” (que não conseguiu sequer distribuição nas salas americanas) sobre dois jornalistas, um palestiniano e um israelita, que se unem para denunciar a violência e as demolições de casas em aldeias palestinianas no Sul da Cisjordânia. E, claro, a nomeação de Karla Sofía Gascón, primeira mulher transexual nomeada na história dos Óscares, algo especialmente significativo, se tivermos em conta que na mesma semana o mundo ouviu Donald Trump garantir que nos Estados Unidos da América “só existem dois géneros”.
Não faltava por onde pegar mas os Óscares deste ano ficaram marcados pela quase ausência de intervenções políticas, não fosse o apresentador Conan O’Brien, que – a par com a atriz Daryl Hannah que, ao subir ao palco, gritou “Slava Ukraini” – foi o único interveniente da noite a arriscar uma referência política, aquando da entrega do segundo óscar ao filme “Anora” [que conta a história de amor entre uma “stripper” norte-americana e o filho de um oligarca russo]: “Duas vitórias! Acho que os americanos ficaram entusiasmados por, finalmente, ver alguém enfrentar um russo poderoso”.
Os Óscares são os prémios de Cinema mais importantes dos EUA e do mundo. São também um dos momentos mais mediáticos do ano, por onde passam as maiores estrelas da Sétima Arte. Anualmente, por esta altura, o mundo para, põe os olhos na passadeira vermelha da Academia e os ouvidos nos discursos de agradecimento – este ano, marcados pelo silêncio desconfortável do que não pode ser calado. Numa altura em que o mundo parece sufocar sob o peso de extremismos, retrocessos e intolerância, esta era uma oportunidade a não perder. E aquelas pessoas, dentro dos seus smokings e vestidos de gala, podiam fazê-lo: são livres, têm uma voz que se ouve no mundo inteiro e estão blindadas pela Arte. É também esse o papel – e a responsabilidade – da Arte: defender o futuro e as manhãs. Vivemos tempos assustadores e angustiantes, que nos convocam a todos na defesa das nossas maiores preciosidades coletivas: a Liberdade, a Democracia, a Paz. Não podemos continuar a fazer de conta que isto não está a acontecer. Isto está a acontecer: o mundo está a andar para trás. Há sempre tanta responsabilidade no grito dos maus, como no silêncio dos bons. Alimentar o elefante na sala só o engorda – e um dia ele esmaga-nos a todos. Silenciosamente, porque é, também, de silêncios que ele se alimenta.
