Opinião: O deserto de ideias
Estamos no fim da campanha eleitoral para as legislativas. Já estou esclarecido sobre os dotes de vólei do candidato da AD, a mestria no domínio da motorizada do candidato do PS, a boa forma de corrida aeróbica da candidata do BE, a firmeza com que o candidato do Chega se agarra ao motard que o conduz e ainda sobre o carro com dez anos do candidato da IL. Sobre matérias de ambiente é que nada.
O candidato da AD adiantou que «nada tem contra o ambiente», o que não sendo negativo é sempre um ponto de partida suspeito para lidar com o assunto.
No Verão de 2024 foram publicados os resultados de um inquérito, 99% dos portugueses apoiam medidas de combate às alterações climáticas e 66% consideram uma questão prioritária. Parece que para os políticos não. Pior, parece que para os jornalista também não.
Uns miúdos lançaram um pó verde para cima de Rui Rocha. Timidamente, diga-se. E registou-se, de novo, uma violência verbal desproporcionada ao acto, como se de um atentado terrorista se tivesse tratado. Com propostas de «educar ao estalo» os miúdos insolentes – não vi a mesma disponibilidade para educar os energúmenos que atacaram a marcha do 25 de Abril – enquanto enalteciam as qualidades de protesto da própria geração. Vi muitos da minha geração (dos cinquentões) a enaltecer a forma civilizada como no seu tempo protestaram, esquecendo-se que, quando tinham vinte anos fizeram parte da geração apodada de rasca por quem, à época, tinha cinquentas…
Na verdade aqueles dois miúdos conseguiram protagonizar o único momento da campanha em que as alterações climáticas foram abordadas.
Romantizamos muito o nosso passado e compreendemos pouco o presente de quem quer futuro.
Quando temos dois partidos negacionistas da emergência climática e os restantes não negacionistas mas inoperantes (o que é pior), perdemos a esperança que sirvam para garantir esse futuro.
Deixo um desafio aos futuros eleitos, mostrem-lhes, com actos, que há motivos para ter esperança, isso é que seria «dar-lhes uma lição».
