Opinião: O Bom, o Mau e o Vilão
Em ano de jogos olímpicos, são boas as memórias de termos presenciado a estreia de países em medalhas, a começar por Cabo Verde (Daniel Varela de Pina), seguido por Botswana, Guatemala ou Dominica. Os fantásticos 100m femininos foram para Santa Lúcia (Julien Afred) e é de saudar Cindy Ngamba, que arrecadou a primeira medalha de sempre para a equipa de refugiados do Comité Olímpico Internacional (COI). Na retina ficou o regresso da ginasta Simon Biles e a emocionante coroação, aos 37 anos de idade, de Novak Djokovic. Bem como a despedida de Rafael Nadal.
Não tão boa é a memória de ter visto a italiana Angela Carini desistir num combate de boxe logo aos 46 segundos, pois sentiu-se em risco ao lutar contra uma mulher que biologicamente é homem. Não é caso único no mundo do desporto feminino, mas Imane Khelif foi autorizada a combater nos jogos olímpicos (ao contrário, por exemplo, da nadadora norte-americana Lia Thomas) apesar da Associação Internacional de Boxe (IBA), após vários exames médicos, ter concluído que ela é uma pessoa com o cromossoma XY. Para a IBA, as regras são simples: mulheres competem com mulheres e homens com homens (tanto quanto sei, já existe na natação uma categoria específica para todos os sexos, géneros e identidades). O COI foi informado que Imane Khelif não era elegível para as competições femininas (algo que a atleta não impugnou). A principal preocupação da IBA é o facto de o seu desequilíbrio hormonal lhe dar uma vantagem que pode ser perigosa para outras pugilistas femininas. Para o COI foi mais importante a forma como Imane Khelif se identifica e o que vem escrito no seu passaporte.
Deus nos livre do COI ser o vilão. Não, nem pensar que o COI pusesse em perigo a religião woke e a cultura do cancelamento. Jamais assumir em público uma atitude que poderia não agradar à fúria irracional das redes sociais. “Que se lixem as mulheres”, pois as redes sociais são tribunais sem lei e não fazem prisioneiros. Tal como para um fascista que se preze, o linchamento é trivial. Andamos tão longe de realidades de quem se sacrifica diariamente por liberdades básicas (desde eleições livres, à liberdade de expressão), que o nosso suor advém de, muitas vezes anonimamente, mandar fechar a matraca de quem não pensa como nós, numa batalha em que pisar o outro é subir um degrau em santidade. Que 2025 nos traga mais gente com coragem, pois só os corajosos ajudam o próximo, mesmo colocando-se em perigo. Antes de ser “cancelado”, quem não “tira o chapéu” a Aristides de Sousa Mendes quando emitiu vistos de entrada em Portugal contra as ordens do regime vigente?
