Opinião: Notas esparsas em vilegiatura
Ainda não há muitos anos, em Agosto Coimbra transformava-se.
A maioria dos estudantes debandava para as suas terras, os futricas privilegiados rumavam às praias, tal como os médicos e os advogados – aqueles que mais forasteiros atraíam nos restantes meses de cada ano.
Antes da “descoberta” dos Algarves, a Figueira da Foz era o destino de eleição, de tal modo que assumia, nesse mês, o epíteto de “Coimbra-B”, porque para lá se transferia quase toda a sociedade, média e alta, da “Lusa Atenas”. E era ver as senhoras a convergir para o Casino, a meio da tarde, para trocar mexericos e exibir toilettes no desaparecido “Pátio das Galinhas”, enquanto aos maridos, lá dentro, iam desaparecendo os escudos e as esperanças no verde pano da roleta…
Em Coimbra, o bulício habitual também tirava férias, deixando quase desertas e silenciosas algumas das mais concorridas zonas da cidade, como a Praça da República.
O Mondego ainda era o “Bazófias”, que invadia os campos em impetuosas cheias invernosas, mas chegado o Estio mirrava para um fio de água que a custo rompia o imenso e escaldante areal.
O ar era abafado mas ainda não condicionado. E não havia Agosto em que o termómetro não varasse os 40 graus, obrigando os cidadãos a buscar refúgio e refrigério nas sombras das repartições, dos cafés e das igrejas, só se atrevendo a sair para a “Calçada” ou “Canal” (Ruas Ferreira Borges e Visconde da Luz) lá para o fim da tarde, quando a canícula abrandava…
Nas mesas da Central e do Nicola, da Brasileira e do Arcádia, viam-se alguns, poucos, clientes habituais de olhar desanimado, contemplando o vácuo de ideias no fundo das chávenas já vazias, naquela temporária orfandade tertuliana…
E lá se iam consumindo uns finos, uns mazagrãs, umas carapinhadas, tentando que a frescura no palato atenuasse a sede e mitigasse as saudades de uma boa conversa.
Nos três cinemas da cidade (Avenida, Tivoli e Sousa Bastos), era tempo de “reprises” – como anunciavam os cartazes expostos a meio do “Canal”.
Os turistas eram escassos e quase só de passagem. Subiam à Universidade, desciam ao Portugal dos Pequenitos, iam espreitar Dom Afonso Henriques ao Mosteiro de Santa Cruz… Poucos ficavam para o dia seguinte num dos hotéis da urbe – que então eram menos do que os dedos de uma mão.
Não havia “Shopping Centers”. Mas existia um magnífico e muito dinâmico centro comercial, que era toda a Baixa da cidade, abrangendo um vasto labirinto de ruelas pejadas de gente atarefada e orladas por longas e ininterruptas fieiras de lojas dos mais variados ramos, com os produtos expostos fora de portas, num polícromo festim para os olhos dos potenciais compradores.
Ainda não tinham surgido os hipermercados. Mas funcionava um excelente e desafogado Mercado Municipal ao ar livre, que todas as manhãs atraía milhares de pessoas para comprarem produtos bio-confiáveis – desde os vegetais cultivados nas hortas das aldeias vizinhas, até ao peixe fresco vindo de madrugada da lota da Figueira, passando pela “criação” saída das capoeiras que auxiliavam as economias domésticas, ou pelos apetitosos bolos partilhados com enxames de abelhas, gulosas mas não agressivas.
E era ver as ceiras de vime colorido a transbordar, erguidas a custo para os “eléctricos” (às vezes com a ajuda de um guarda-freios mais solidário) que iam carrilando, para as várias zonas da Alta, quem tinha concluído o mercadejar quotidiano.
Assim era a cidade, que em Agosto deixava de ser “Coimbra dos doutores”, para se assumir como “Coimbra dos calores”…
Hoje quase tudo está diferente! Para o bem e para o mal…
A Baixa ainda espera o impulso que volte a dar-lhe a vida que merece, com casas recuperadas, a fixar habitantes, e não apenas a servir alojamento local; com comércio variado e de qualidade, e não infestado por lojas de “recuerdos” para turistas; com eficazes transportes públicos (espera-se que o famigerado “metro de superfície” corresponda às expectativas, compensando os actuais transtornos).
O Mondego foi domado e mantém agora um generoso lençol de água, uma belíssima ponte pedonal a ligar as duas margens de um aprazível Parque Verde, que proporciona muitas e convidativas esplanadas.
A actividade cultural é intensa e variada (com destaque, agora, para mais uma edição do excelente “Festival das Artes” que leva alegria à Quinta das Lágrimas). Há vários hotéis confortáveis e muitos restaurantes de apreciável qualidade.
Apesar de todas as transformações, a até graças a algumas delas, Coimbra continua a ser uma cidade com invejável qualidade de vida, onde dá gosto trabalhar, onde continua a ser um privilégio viver e um sortilégio para os que vêm estudar.
E é isso, certamente, que irão sentir os milhares de jovens que daqui a poucas semanas começam a chegar, à descoberta desta Coimbra onde vêm beber os mais diversos saberes.
Para eles, aqui fica, desde já, uma cordial saudação de boas-vindas, com a garantia de que os antigos estudantes, tal como toda a cidade, saberão acolher e apoiar os que agora vão dar mais um importantíssimo passo rumo a um futuro que se deseja promissor.


