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Opinião: Migrantes

23 de maio de 2024 às 10 h16

Definitivamente somos um país de migrantes (IMI e EMI), por muito que isso custe ao dr. Ventura e ao seu grupo de apaniguados xenófobos.

Nos anos vinte, foi a corrida ao ouro no Brasil (nos Brasis, assim se dizia vulgarmente), de que o melhor testemunho são as obras de Ferreira de Castro, publicadas em 1928 e 1930 tituladas, respetivamente, EMIGRANTES e A SELVA. O Manuel da Bouça dos Emigrantes, regressou à sua pobre aldeia sem nada que pudesse fazer dele o homem rico dos seus sonhos e restou lhe voltar a emigrar para sustentar a família e manter os desejos de poder ser rico.

Depois, a partir dos anos cinquenta, a Europa passou a ser o sonho de quem labutava por uma vida melhor. A França, mas também a Alemanha e o Luxemburgo foram os destinos escolhidos, que a guerra colonial acelerou decisivamente, com a fuga à morte e ao colonialismo de que muitos se iam apercebendo à medida que amigos e conterrâneos contavam o que se passava nas colónias portuguesas.

Portugal é o país da Europa com mais emigração, dizem estatísticas que tomo por fiáveis. Haverá cerca de 2,1 milhões de portugueses na diáspora e cerca de 15% dos naturais emigraram na busca afanosa de melhor vida para si e para os seus.
Todos nos lembramos dos bairros de lata- os célebres bidonvilles- na região de Paris que albergavam milhares de portugueses.

Já aqui contei, mas não resisto a repetir a dose, com a benevolência dos leitores, o que me aconteceu numa noite de calor, na cidade francesa de Pau, ali pertinho dos Pirinéus. Eu passeava numa rua da cidade, com a minha mulher e senti que atrás de nós andava um homem, relativamente novo, que parava quando nós parávamos e caminhava quando nós caminhávamos. Disse à minha mulher que estávamos para ser assaltados mas, acabadinho de fazer quase quatro anos de serviço militar e em boa forma física, resolvi pegar de caras no assunto e dirigi me ao homem em Francês, perguntado se queria alguma coisa. Desatou num pranto. Era um português, com poucas semanas de afastamento da sua aldeia, que ao ouvir falar Português viu nesse facto a maneira de matar saudades da pátria.

Da perspetiva das escolas, essa integração pede mais professores, mais psicólogos, mais técnicos de serviço social para que o atendimento seja o mais personalizado possível. O ensino do Português como língua de acolhimento é fundamental para as crianças e jovens com mais dificuldades económicas ou sociais.

Imagino, pois, como se sentirão todos aqueles que deixaram os seus países e que escolheram o nosso para viver.
É essa gente que vem à procura de uma vida melhor que a extrema-direita radical, com palavras e atos, quer escorraçar das nossas cidades. Provavelmente alguns destes serão descendentes dos que se acolheram noutras terras e foram recebidos por outras gentes.

A pouca importância dada à educação cívica nas nossas escolas não assume que a diversidade é um fator de valorização das comunidades educativas e requer medidas efetivas de integração na escola e na sociedade.

A alimentação, os costumes, as raças, a forma de vestir são importantes para os mais novos entenderem que a vivência pacífica em comunidade é uma das razões de ser das nossas vidas. Por outro lado, a relação entre alunos de diversas origens é uma riqueza a aproveitar.

Da perspetiva das escolas, essa integração pede mais professores, mais psicólogos, mais técnicos de serviço social para que o atendimento seja o mais personalizado possível. O ensino do Português como língua de acolhimento é fundamental para as crianças e jovens com mais dificuldades económicas ou sociais.

Li há dias que nas escolas do Fundão 15% dos alunos são estrangeiros e muito bem acolhidos e aceites na comunidade. O mesmo se passa em vários concelhos do distrito de Viseu, segundo ouvi dizer a deputada Ana Catarina Mendes.

Em Coimbra também há bons exemplos. Meramente a título indicativo, a Escola Martim de Freitas, situada naquilo que se costuma chamar a zona nobre da cidade, tem 227 alunos imigrantes, de 31 nacionalidades diferentes. Parece ser um bom exemplo para os que veem em cada imigrante um potencial perigo.
Somos um bom exemplo de quem tem memória e que sabe que os que nos precederam na escala da vida tiveram com frequência de procurar o pão em terra alheia, nem sempre bem recebidos, é certo, mas fazendo da diáspora o contributo para um mundo melhor e onde os homens se entendam.

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