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Opinião: Liberdade de Abril condicionada

25 de abril de 2024 às 10 h56

Entre os políticos de relevo da minha geração, lá bem no alto, figura Nelson Mandela, Prémio Nobel da Paz e primeiro Presidente da África do Sul livre. É difícil imaginar como é que uma criança negra nascida e criada numa simples cubata africana, em zona rural, pôde subir os degraus da educação, privilégio de branco, e sofrer a consciência da humilhação do seu povo para se tornar o libertador das garras da tirania branca. A sua autobiografia, que intitulou “Um longo Caminho para a Liberdade” (Planeta, 2012 ), é ao mesmo tempo um livro arrepiante, quase diria dantesco, pela natureza e crueldade das torturas ao longo de 27 anos de prisão, e uma narrativa épica, que a pouco e pouco vai superando adversários e adversidades até à vitória final. Mandela encontrou pela frente um regime racista, segregacionista, ditatorial, assente no apartheid e na supremacia branca. Foi tão longo o caminho para a liberdade que só um homem com a sua dimensão humana poderia percorrer com sucesso .
Adotou uma política de não violência, mas quando o adversário faz da violência a sua arma de combate, só a violência seria a resposta adequada e eficaz. Muitos milhares de negros foram mortos às mãos do exército e das polícias governamentais. Nesta luta, o partido de Mandela, o Congresso Nacional Africano (ANC), não esteve sozinho, aliou-se a outros partidos, incluindo o Partido Comunista. Quando o governo se viu cercado interna e externamente e obrigado a negociar a paz, quis impor duas condições: que o ANC abdicasse da violência e que se desligasse da coligação com o PC. Mandela não cedeu um milímetro. A fonte da violência era o governo. No momento em que depusesse as armas, de imediato a oposição seguiria o mesmo caminho. Quanto ao PC, no interior do próprio ANC havia defensores do afastamento, mas Mandela foi claro: os partidos que lutam pelas mesmas causas que nós – o derrube do apartheid e da supremacia branca – não são nossos adversários, são nossos aliados.
As comemorações do 25 de Abril em Portugal lembram-me sempre o 27 de Abril na África do Sul. A liberdade foi o bem supremo em boa hora conquistado por heróis que nunca é demais celebrar. Mas cá, como lá, vencer o fascismo não foi suficiente. Vencer o ciclo negro do apartheid e a supremacia branca, fundamentais para abrir outras portas, não sarou todas as feridas. O povo continuou pobre e os ricos ficaram mais ricos. Os mesmos. O 25 de Abril trouxe-nos o bem prioritário, essencial, que é a liberdade. O problema é que a liberdade não é igual para todos, os direitos fundamentais não estão ao alcance de todos. A liberdade não é compatível com a pobreza. O pobre não é livre de ter a sua casa, de ter uma alimentação saudável, de ir ao médico, de estudar na universidade ou até mesmo de se defender na justiça. Ser livre é um passo necessário mas insuficiente. Tanta coisa que não podemos fazer em liberdade. Não temos liberdade para ser livres. É o que nos falta para cumprir Abril. Há liberdade plena para alguns, condicionada para muitos. Não é o 25 de Abril que sonhamos: PARA TODOS.
A minha admiração por Mandela não me obriga a esconder críticas que vieram de onde menos se esperaria, do interior do próprio partido e da mulher da sua vida ao longo da luta política, Winnie Madikizela. No partido considerou-se que Mandela se preocupou mais com a reconciliação do que com as reformas para elevar o nível de vida das populações negras e Winnie não escondeu que o ex-marido dececionou os negros sul africanos mantendo ou agravando as desigualdades. Mandela deu a vida pelo seu povo, arriscou sem hesitar a pena de morte, mas os negros continuaram pobres e os brancos continuaram ricos. Esta acusação tem fundamento, mas Mandela tinha consciência, que afirma na sua autobiografia, que os sul africanos brancos, nascidos e criados na África do Sul, são tão sul-africanos como os negros. Por outro lado, ele sabia que os brancos, longe do poder, tinham os mais elevados níveis académicos e de especialização, eram os mais preparados para o desenvolvimento económico. A rotura total não aproveitaria a ninguém.
Os bravos e gloriosos Capitães de Abril acabaram por se curvar demasiado cedo perante as altas patentes militares, os generais do regime, e perante políticos com negócios e interesses pessoais em África. O MFA foi rapidamente absorvido pelas lógicas partidárias, por um lado, e por personalidades do antigo regime que logo se infiltraram no Movimento. Os objetivos da revolução, os três Ds do MFA, – Democratizar, Descolonizar, Desenvolver -, mirraram pelo caminho. Os “profissionais da democracia” só contam os votos, não se prendem com “ninharias” como as grandes desigualdades e os elevados índices de pobreza; a descolonização foi mais imposta que consentida, torpedeada por personalidades com outros interesses; o desenvolvimento, ao fim de 50 anos, continua dependente e à espera, sempre à espera das migalhas da Europa.
Mandela construiu o diálogo entre as partes envolvidas no interesse comum. Ao povo não interessam as guerras entre partidos, interessa que o governo consolide a liberdade, combata as desigualdades e melhore as condições de vida dos mais desfavorecidos. Ao povo interessa que se cumpram os direitos humanos. É o que nos falta fazer.

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