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Opinião: Gaza

24 de maio de 2025 às 12 h52
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O problema de Gaza não é o problema das métricas do horror. O problema de Gaza é o problema do inumano. Categorizá-lo como genocídio, massacre ou holocausto pouco ou nada importa. O que importa é a insuportabilidade do sofrimento, pessoal e intransmissível, de quem viu a sua singular vida ser moeda de troca de ódios ideológicos e de paixões tribais.
Estaline, com o fino pragmatismo que o definia, disse-o de modo definitivo, quando postulou que “uma morte individual é uma tragédia, um milhão de mortos uma estatística”.
Quando a morte passa de tragédia a estatística, os mortos deixam, de vez, de contar. Duplamente perecem. São expulsos do círculo da humanidade. São números glaciais de um cálculo de poder.
E, de um modo subtil, tornam-se em matéria de entretenimento, nas televisões e nas redes. E em objeto de comoções fortes, mas instantâneas. Lá, onde o consumo emocional substitui a indignação ética.
Gaza não apresenta nada de novo. O sofrimento de Gaza, esgotada a sua capacidade de espetáculo comunicacional, será rapidamente esquecido. Como já o é o da Ucrânia. Como já o foram os da Síria, do Afeganistão, do Ruanda, de Myanamar, do Tibete, dos curdos, dos arménios, dos judeus, dos índios das Américas, dos aborígenes, dos escravos de outras eras, dos escravos da atual era, dos ofendidos e oprimidos de todos os tempos e lugares.
Benjamin Netanyahu, ao lado de Vladimir Putin, dorme tranquilo com o silêncio dos mortos. E vive tranquilo com o sofrimento dos ainda vivos.
Sabe que o tempo está sempre do lado dos mais fortes. E que, mais cedo ou mais tarde, outro evento estatístico desviará o cansado olhar e a frágil atenção de quem devora emoções nos neutros écrans do mundo.

 

Autoria de:

Manuel Castelo Branco

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