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Opinião: Estudantes e combatentes

16 de outubro de 2024 às 11 h08

Sendo este um espaço onde escrevo enquanto presidente da AAEC (Associação dos Antigos Estuantes de Coimbra), vou hoje ocupá-lo com um tema que respeita não apenas aos que estudaram em Coimbra, mas também aos demais que foram jovens nos anos 60 e início dos anos 70.

Ao longo dos séculos, e em momentos críticos da História de Portugal, estudantes de Coimbra integraram forças armadas, combatendo por causas diversas e em diferentes locais.

Posso citar, por exemplo, logo no séc. XVII, o “Batalhão Académico” que se formou em 1645, em defesa da Independência nacional, restaurada 5 anos antes. Comandado pelo próprio Reitor da Universidade, D. Manuel de Saldanha, era composto por mais de 600 estudantes, enquadrados por alguns professores, e marchou para o Alentejo para defender Elvas, ameaçada pelas forças espanholas.

No início do séc. XIX, estudantes da Universidade de Coimbra pegaram em armas, desta vez para enfrentar as três Invasões Francesas. Em meados desse mesmo século estiveram envolvidos nas lutas liberais. Já no séc. XX, estudantes e professores participaram nas campanhas da I Guerra Mundial (1914-1918); e em 1919, o Batalhão Académico interveio para defender o regime republicano, implantado havia uma década, no confronto que ficou conhecido como “Monarquia do Norte”.

Em 1961 iniciou-se a chamada Guerra Colonial, que viria a prolongar-se até à Revolução de 25 de Abril de 1974, em três regiões de África: Angola, Moçambique e Guiné. Ao longo desses 13 anos, centenas de milhares de jovens portugueses foram chamados para o serviço militar obrigatório nas Forças Armadas (Exército, Marinha e Força Aérea) e mobilizados para as diversas frentes de batalha. Entre eles muitos estudantes de Coimbra. Vários acabariam por integrar a longa e trágica lista de mais de 10 mil militares que lá morreram, ou das dezenas de milhares que ficaram com ferimentos mais ou menos graves. E quase todos regressaram psicologicamente afectados pela traumática experiência de guerra em mais de dois anos que roubaram à sua juventude.

E é em nome de todos os Antigos Combatentes – não só, obviamente, dos que foram estudantes de Coimbra – que aqui abordo hoje esta questão.

Ao contrário do que sucede noutros países, os veteranos de guerra têm escasso reconhecimento em Portugal. Só nos últimos anos lhes foram concedidas parcas regalias: isenção de taxas moderadoras, entradas gratuitas nos museus, passes em alguns transportes públicos. O actual Governo anunciou recentemente que a partir do próximo ano vão passar a usufruir de descontos, de forma faseada, na compra dos medicamentos.

Para além disto, o que já existe há alguns anos é um “suplemento especial de pensão” concedido aos Antigos Combatentes reformados, que é pago anualmente, em Outubro, e cujo valor máximo é de 182 euros para os que estiveram 24 meses ou mais em zona de combate.

Ou seja, aos que tiveram de sacrificar mais de dois anos da sua juventude (no meu caso, por exemplo, foram 3 anos e meio), o Estado, magnânimo, concede menos de 50 cêntimos por dia!

Não vou comparar, por exemplo, com as subvenções vitalícias e os subsídios de reintegração que auferem muitos que tiveram a “arriscadíssima” missão de ocupar lugares políticos; ou as escandalosas indemnizações a gestores públicos que saem de um cargo principesco para ocupar outro ainda mais multimilionário…
Meio século volvido, é lamentável que os sucessivos responsáveis do regime democrático não se envergonhem da “esmola” concedida aos Antigos Combatentes.

Num momento em que tanto se discute o Orçamento de Estado, apetece dizer a quem de direito (designadamente aos governantes e aos deputados), que a tal indigna esmola é uma despesa que em cada ano que passa menos pesa ao erário público, pois todos nõs, Antigos Combatentes, temos agora mais de 70 anos, pelo que vamos morrendo…
E parca é a consolação de saber que o Estado nos reconhece o direito a honras fúnebres, com bandeira nacional a cobrir a urna…

NOTA FINAL: Já depois de ter escrito o que está acima, leio na imprensa desta terça-feira que o Ministério da Defesa é contemplado, na proposta do Orçamento de Estado, com mais de 31 milhões de euros para viagens. Sugiro que utilizem parte dessa verba para uma viagem ao passado, e o honrem aumentando o humilhante suplemento que é concedido aos Antigos Combatentes.

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