Confiança política
Ainda há dias, a nossa presidente da Câmara altercou-se com o ministro da Agricultura e Pescas, José Manuel Fernandes, criticando-o publicamente de dar prioridade a prestar declarações à imprensa, em vez de dialogar com os autarcas. Alto e bom, afirmou ser autarca eleita pela gente de Coimbra, ao que o ministro respondeu que “o território é de todos” e que só estava a responder às perguntas colocadas pelos jornalistas. A meu ver, Ana Abrunhosa evidenciou um tique populista, a de afirmar ser a autêntica representante do povo de Coimbra, pelo que, logicamente, nunca poderia ser rejeitada por quem a elegeu.
As virtudes que alguns ainda lhe atribuem tendem a esvanecer-se após a tomada do poder, sendo uma das mais frequentes a pressão sobre a imprensa.
Veio agora a lume que um jornalista esteve dias e dias à espera de uma resposta sobre uma questão relacionada com um tema conimbricense, em concreto, o futuro da Casa do Cinema. Apesar de existir o direito fundamental de acesso a documentos administrativos em Portugal, obter respostas de autarcas eleitos já parece ser menos importante e, lê-se nas notícias, só com “jeitinho” se consegue o beneplácito de uma resposta.
O jornalista da Lusa fez a notícia com os dados que possuía, e a presidente da Câmara Municipal acusou João Gaspar de “deturpar factos” e de possuir “uma agenda”, exortando-o mesmo a suspender a carteira profissional. A direcção da Lusa já afirmou manter a confiança no jornalista para “fazer a cobertura das reuniões” do executivo municipal de Coimbra. O PCP e a IL acusaram Ana Abrunhosa de tentar condicionar o livre exercício do jornalismo.
Por seu turno, Ana Abrunhosa, tanto quanto sei, não fez queixa nenhuma às autoridades competentes e que regulam a profissão dos jornalistas. O Partido Socialista e o Livre, partidos que fizeram parte da coligação que fez eleger Ana Abrunhosa, demarcaram-se da atitude da edil, até a reprovaram e condenaram, mas nenhum colocou em causa a confiança política nela depositada, singularizando a sua actuação.
Se amanhã a presidente da Câmara decidir “instalar” um sistema de acreditação dos jornalistas que a podem questionar, mesmo em reuniões públicas, ficaria destrinçada pela autarca quem, para ela, são os jornalistas com uma agenda opositora. Eu não conheço jornalistas “a soldo”, mas seria essa atitude também considerada pelos partidos que a apoiam uma decisão pessoal ou merecedora de desconfiança política? As tácticas populistas podem ser bastante apelativas e carismáticas quando se está na oposição, mas altamente destrutivas no exercício do poder.


