O voluntarioso exacerbado também cansa
A personagem cheia de boas intenções que não tira o olhar do que fazemos, não omite uma crítica, não perde um reparo, também se torna exaustiva e cansa. O problema de exaurir é esgotar a tolerância. Cresce o aborrecido, entra a reacção, desponta o azedume. O ser humano ideal é doce, mantém uma voz adequada, evita mudar de tom e sobretudo não se exalta. Conheci gente deste matiz que faziam a vida ao seu redor maravilhosa.
Ser pessoa é um processo e não uma fotografia. Pessoa é como uma letra numa palavra e portanto carece de letras, realiza-se no conjunto. A letra por si só é nada, e tem insignificância. Uma pessoa inteira existe dentro de uma estrutura e tem de conjugar-se nela ou é erro ortográfico, ou falha a sintaxe, ou desafia o verbo. As pessoas forçosamente pensam nos outros e colocam-se nos seus sapatos para criticar e apoiar.
O que fazemos tem de estar em relação com as presenças alheias, observar a sua incomodidade ou solidariedade. Ser pessoa é pois integração. O egoísmo é o revés do conceito. Ter como referência o eu implica ignorância das alternativas, a ausência de preocupação com os demais, a falta de mundo e de empatia. Ser pessoa é sentir-se inteiro, é combater as frustrações, desafiar as dificuldades. As pessoas assim não gostam de voluntários exacerbados. Imaginemos o gago, que alguém se precipita a todo o momento em terminar as palavras. Ele zangar-se-á com razão.
– Dei – dei – dei -dei xa-me te-te-te-terminar a palavra, Porra!
Por isso o voluntarioso exacerbado ultrapassa a baliza da relação e constrói desassossego. Não quero que me ajudes a levantar, ou que me escolhas a roupa , ou me alteres o canal que vejo só. O eu tem de ser completo e a presença voluntária tem de acoplar como as peças do lego. Esse é o cumprimento do tecido celular e do puzzle, quando se tornam imagem coerente. A ajuda voluntariosa não pode penetrar a fronteira dos outros porque se torna delinquente.
A realidade humana é vestida desta cumplicidade e arrumação, que chamamos habilidade social, muito difícil de transmitir ou ensinar.


