Opinião: Esgoto Digital
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Esgoto Digital
As “redes sociais” tornaram-se, ao longo da última década, no laboratório onde se testam, em muitos casos com falhas de supervisão, os limites da saúde mental, a robustez das democracias e até a coesão das nossas sociedades. Temos (cidadãos e governos) uma responsabilidade coletiva!
Mais uma decisão, por estes dias, de um tribunal espanhol contra a Meta, sancionando o uso indevido de dados pessoais dos utilizadores, assim como a ocultação por essa mesma empresa de um estudo sobre os impactos das plataformas na saúde mental, são novas confirmações de algo que a experiência coletiva já gritava: as grandes “redes sociais” operam com uma lógica de impunidade, lucro imediato e desprezo pelas consequências sociais.
As “redes sociais” vivem de captar atenção e monetizar vulnerabilidades. Algoritmos opacos decidem aquilo que vemos, moldando comportamentos, emoções e até perceções políticas, sem transparência nem prestação de contas. Quando estes sistemas privilegiam conteúdos extremados, emocionalmente tóxicos ou polarizadores, só porque geram mais “engagement”, estamos perante um mecanismo industrial de erosão da vida democrática. O espaço público transforma-se num mosaico fragmentado onde a verdade perde valor e onde o radicalismo encontra terreno fértil. Não por acaso o crescimento da extrema-direita está comprovadamente associado a uma influência massiva das “redes sociais”.
É tempo de parar e avaliar o impacto devastador para as democracias. Eleições transformadas em arenas de desinformação; grupos de interesse que manipulam micro-segmentação para influenciar comportamentos políticos; um ambiente público onde o diálogo cede lugar ao insulto viral. A tomada de decisão coletiva sofre quando os cidadãos deixam de confiar uns nos outros ou nas suas instituições. E essa desconfiança é amplificada pelas plataformas.
Finalmente, as sociedades começam a perder equilíbrio: aumento de conflitos geracionais, polarização artificial, degradação da esfera privada, contaminação do debate público e uma epidemia silenciosa de sentimentos de inadequação entre jovens. Estamos a normalizar o anormal.
Estas plataformas precisam de escrutínio, auditorias independentes, limites claros ao uso de dados e transparência obrigatória sobre impactos na saúde, na política e na sociedade. Já existe regulação europeia nesse sentido. Aplique-se, pois!
Se continuarmos a permitir que este tipo empresas (e a Meta é apenas uma dentre várias) definam sozinhas as regras do jogo, estaremos a delegar nos algoritmos a gestão invisível da saúde mental coletiva, do debate democrático e da coesão social. E isso é, pura e simplesmente, incompatível com uma sociedade livre e saudável!


Como sempre uma grande perspicácia.
É efetivamente um problema grave.