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Opinião: Errar é humano

29 de fevereiro às 08h56
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Eu pecador me confesso, chumbei no 2º e no 4º ano do Liceu. Na escola primária não tive estes desvarios porque tinha um professor muito atento e com uma régua sempre à mão que não deixava espaço para devaneios. No Liceu, criança ainda, longe de pai e mãe e sem nenhuma autoridade próxima, puxava-me muito mais para jogar à bola do que para queimar as pestanas sobre os livros. Mas chumbar foi a minha salvação. Em dois anos a mais, cresci, afinei o sentimento de culpa, tomei consciência do sentido de responsabilidade e criei os mecanismos de defesa para não dar mais desgostos na família. E não dei. Nos exames finais do Liceu, na minha área de estudos, tive as classificações mais altas e pude entrar na Universidade sem problemas.
Aprendemos com os fracassos. Hoje não haverá ninguém de relevo no mundo político e no plano económico que não revele os fracassos que conduziram ao sucesso. Nasceu assim a “teoria do fracasso”, mostrando que não há motores do sucesso sem a experiência do erro. Temíamos então que o fracasso fosse a queda no abismo, sem remissão. Hoje descobrimos que pode ser o caminho da glória.
É já vasta a “literatura” sobre o fracasso como trampolim para o sucesso. Destaco a obra de Edmondson, Amy ( 2023 ). Right Kind of Wrong: The science of failing well, cujo título me permito traduzir: O lado certo do erro: A ciência de falhar bem. A autora, professora na Universidade de Harvard, tem uma vasta obra com forte impacto na educação. Ensina a lidar com os fracassos e, na sua tipologia, destaca o fracasso inteligente que convive bem com os erros e vai ao encontro de práticas de excelência para atingir os objetivos.
A análise dos erros voltou a merecer o foco da educação e permite reequacionar o papel e a importância do professor. Uma professora já avó mas ainda no ativo, atenta aos escritos que vou produzindo, disparou à queima roupa numa sessão de esclarecimento e debate sobre a função docente: “O que é para si um bom professor” ? Olhei, hesitei, remoendo o conceito para uma resposta adequada.
Os “manuais” de ciências da educação têm mil respostas, mas nem todas seriam ajustadas à pergunta e ao contexto. No conceito popular e simplista, é fácil: bom professor é o que sabe muito e fala bem. Hoje, resposta errada.
“O professor começa por ensinar o que sabe e acaba ensinando o que não sabe”. Esta afirmação não é original, foi colhida num professor e filósofo francês, cujo nome e obra repousam invisíveis nos insondáveis buracos negros da memória. Quando começa, sem formação, o professor prepara a aula de acordo com o programa e o livro aprovado. Ensina o que sabe e como sabe e os alunos não são para aqui chamados. Mas o bom professor, experiente e bem formado, organiza o seu programa de ação em função do diagnóstico dos alunos, de cada aluno. Impossível com tantos alunos, dirão! Impossível se o professor estiver preocupado em “dar a lição”, em “expor a matéria”, sem tempo para prestar atenção a cada um. A boa escola não funciona assim, com o professor a falar e os alunos a ouvir. Os alunos trabalham, leem, escrevem, desenvolvem as atividades adequadas ao seu crescimento, e o professor pode seguir e intervir quando lhe pareça oportuno.
O bom professor é o que sabe ouvir as dúvidas, motivações, interesses, dificuldades e problemas dos alunos, que reúne a informação para um diagnóstico correto do seu perfil e das suas necessidades, e sabe acompanhar cada um à descoberta dos caminhos do progresso e do sucesso, sem perder de vista os grandes objetivos e as aprendizagens obrigatórias para o crescimento e desenvolvimento.
O saber mais importante não é o que se transmite, é o que se constrói. Os alunos podem ficar indiferentes às lições dos professores, até podem adormecer, mas aderem a tudo o que faz parte do seu projeto. O saber é importante, mas mais urgente é conhecer os mecanismos para a sua construção. O melhor professor não é o que ensina o que sabe, que transmite o saber feito, é o que ajuda a descobrir os caminhos que levam à descoberta e construção do saber.
No ensino superior é mais fácil de entender. Passei por uma dissertação de licenciatura e uma tese de doutoramento com dois excelentes orientadores, mas nenhum conhecia como eu a respetiva área de investigação. O papel do orientador é assegurar que os caminhos da investigação são os mais adequados para garantir resultados seguros. Do mesmo modo, orientei muitas dissertações de mestrado e um número importante de teses de doutoramento, nem sempre nas áreas das minhas pesquisas. A metodologia da investigação é a bússola orientadora, um bom instrumento para todo o professor em qualquer nível de ensino. O que se pretende é que ele saiba conduzir os alunos à descoberta e construção do seu próprio saber. O saber alheio nem sempre encaixa no projeto dos alunos.

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