Opinião – Entre a inovação incremental e a próxima revolução tecnológica
Na semana passada, a Apple revelou as novidades da marca no seu sempre aguardado evento anual em Cupertino. Este ano, apresentou uma nova geração do iPhone, mais fino e com um design considerado verdadeiramente inovador em quase uma década; AirPods que traduzem em tempo real; chips que aceleram tarefas de IA e Apple Watch com capacidade para monitorizar hipertensão e outros parâmetros.
À semelhança de muitos outros, este evento em especial revela bastante sobre a gestão de expetativas de evolução das tecnologias por parte dos utilizadores. Como referia o jornalista Lourenço Medeiros, não se pode esperar uma revolução todos os anos e passámos de momentos de grande salto tecnológico (revolução tecnológica), alguns deles imortalizados nas famosas apresentações de Steve Jobs, para evoluções de alguma forma expectáveis (inovação incremental).
Neste espaço temos vindo a referir algumas áreas onde poderão ocorrer revoluções tecnológicas no futuro, como é o caso da computação quântica, da integração nativa de IA em chips, de dispositivos como óculos de realidade aumentada, relógios e pulseiras capazes de monitorizar diversos parâmetros biométricos, interfaces cérebro–máquina, etc. etc.
Mas o que se poderá esperar de verdadeiramente revolucionário nesta indústria no futuro? Recuando à década de 60, a previsão, à época bastante ousada, era que a capacidade computacional iria passar a crescer de forma exponencial, acompanhada por uma diminuição dos custos, no que ficou conhecido como Lei de Moore – a cada dois anos, ocorreria uma duplicação da capacidade de processamento de um computador e uma redução para metade do seu custo. E por que não se podem esperar revoluções todos os anos? Usando o exemplo da Apple que lança produtos novos a cada ano, as revoluções podem acontecer só de década a década quando uma combinação de fatores viabiliza uma nova tecnologia. Não será comportável fazer acontecer uma revolução todos os anos porque o ciclo de maturação de uma tecnologia (da investigação ao protótipo, ao produto e ao mercado) pode demorar anos e o ecossistema precisa de tempo para integrar uma inovação.
Esperar sempre mais da tecnologia a cada dia, a cada ano, leva-nos a questionar qual será o limite desta evolução. A Lei de Moore pode ter durado mais de 50 anos, mas mais do que uma lei, era uma tendência histórica e foi perdendo força por limites físicos e por custos de fabrico. Este é também um exemplo de gestão de expetativas – na tecnologia como em tudo, o excesso de expectativas traz frustração, tal como, em sentido contrário, a redução de expectativas pode reduzir deceções. Porque a evolução tecnológica, essa, será sempre condicionada pelas leis da física… e da economia!

