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Opinião: Democracia e impérios

29 de março de 2025 às 12 h40
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Desfeita a mitologia marxista do fim da história, nos idos de 80 do século XX, os anos 20 do presente século, de igual modo, reduziram a cinza a homóloga profecia liberal. Não aconteceu a sociedade sem classes, decretada por Karl Marx. Nem a universalização da democracia representativa, anunciada por Francis Fukuyama.
O que se vem tornado universal, nos últimos tempos, é o declínio e queda das sociedades demoliberais, com o colapso dos seus princípios estruturantes: Estado de Direito, separação de poderes e tutela dos direitos humanos fundamentais.
Na América, onde a democracia há muito se travestiu em plutocracia, assistimos ao triunfo final do despotismo financeiro, encarnado em Trump, sumo sacerdote de Wall Street e das invisíveis conspirações do Mercado Rei.
Na Velha Europa, onde a democracia há muito se vem dissolvendo pela captura da representação por partidos transformados em máquinas auto-referenciais de poder, o sufrágio periódico é o único fio de autogoverno sobrante.
A ideia democrática não é constante política historicamente desejada e praticada. Aristóteles, que via na democracia a tirania das maiorias, preferia a Politeia, governo dos virtuosos movidos por um horizonte de bem comum.
O problema é que, sem recurso a uma ordem metanormativa, é impossível definir o que seja virtude ou bem comum.
A constante histórica universal é a tirania, nas suas plúrimas formas e manifestações, não raro tomando a aparência formal de democracia.
A espécie humana é naturalmente territorial. E firmemente agressiva. Os impérios e as conquistas territoriais constituem a autêntica constante histórica da vida em comunidade humana.
Trump e Putin mais não representam que uma hodierna atualização de tiranos mais antigos, de déspotas de sempre. Heróis, sempre, das gestas triunfais de cada povo eleito.
O novo Czar das Rússias, como os anteriores czares, brancos e vermelhos, quer mais e mais espaços vitais. E o novo Imperador das Américas não brinca quando olha guloso para a Gronelândia ou para o Canadá.
A democracia social europeia durou trinta gloriosos anos. Há muito que caminha para um fim.
Pois não é da natureza das coisas do mundo. Nunca foi.
Um dia os livros de histórias contarão, com espanto e incompreensão, a breve aparição, na segunda metade do século XX, depois de duas guerras que destruíram os impérios de então, de uma anomalia chamada Estado Social. E, jubilosos, darão nota da sua planeada queda. Para glória dos regressados e dos novos Impérios.

Autoria de:

Manuel Castelo Branco

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