Opinião: Celebrar abril em novembro
Discutir os contornos, causas, atores e consequências do 25 de novembro de 1975 valoriza e reforça a real importância do momento mais marcante da nossa história contemporânea, o 25 de abril de 1974!
A polémica recente em torno da cerimónia celebrativa do 25 de novembro de 1975 na Assembleia da República não fazia parte do programa oficial das comemorações dos 50 anos do 25 de abril de 1974, mas não poderia ser mais oportuna. A verdade é que, nas últimas semanas, muitos políticos, historiadores, comentadores e até alguns dos protagonistas (ex. militares do Grupo dos Nove) se foram pronunciando e, com isso, dando visibilidade acrescida a um momento relevante da nossa história recente.
Falar do 25 de novembro ajuda a compreender ainda melhor a real importância do 25 de abril. Aquele não existiria sem este, e este último confirma-se realmente por via daquele!
Com o distanciamento e a objetividade que o tempo nos permite olhar para a realidade passada podemos dizer que – ao contrário do que a direita tentou vender por muito tempo – as duas datas não são antagónicas, mas complementares. O 25 de novembro é obra e mérito em enorme medida de muitos que estiveram na base do 25 de abril, designadamente Mário Soares e alguns dos militares moderados do “Grupo dos Nove”.
Num tempo em que os extremismos e os populismos tomam conta das agendas políticas, dando palco a protagonistas improváveis e desprovidos de valores, olhar para a história recente, seja nacional ou global, é um exercício fundamental.
Podemos evitar a repetição de erros grosseiros se atentarmos mais no curso do tempo, se a escola se assumir definitivamente como um espaço de discussão (e não apenas de memorização), se o jornalismo de qualidade for incentivado e valorizado e, acima de tudo, se os poderes públicos investirem em cultura como o principal antídoto contra a ignorância e o esquecimento!
A democracia e as liberdades precisam como nunca de ser defendidas. Com o olhar de abril ou de novembro. Isso faz-se com mais investimento em conhecimento, educação e cultura. A história explica porquê!
