Opinião: Cartazes ao sol
Num cruzamento urbano qualquer, três cartazes de partidos políticos disputam o olhar apressado dos condutores. Sendo certo que o sentido de voto é uma decisão que resulta de inúmeras e complexas variáveis, não deixamos de formular uma pergunta: será possível ler uma eleição nos cartazes, slogans e imagens espalhadas pelo espaço público?
À primeira vista, parecem apenas rostos sorridentes e promessas. Mas, observados com atenção, revelam muito mais: estratégias de comunicação, identidades políticas e formas distintas de interpelar o país. Neste caso, três estéticas visuais – e três destinos diferentes nas legislativas.
Lembrava Roland Barthes que todas as imagens têm camadas de leituras: há um sentido denotativo (objetivo) e outro denotativo, simbólico, ideológico, latente – aquilo que a imagem quer fazer sentir e pensar. Nos cartazes políticos, esta retórica visual transforma-se num campo de batalha: o fundo, as cores, o olhar do candidato, a escolha da frase – tudo participa numa engenharia do desejo. Cada elemento é uma engrenagem simbólica que constrói uma ficção de poder, de verdade ou de empatia. Uma ficção visual que procura convencer, comover ou mobilizar.
O Bloco de Esquerda escolheu a frontalidade sem adornos. “O voto no Bloco taxa os ricos” é um murro verbal. Não há eufemismos, nem há metáforas – é o discurso do confronto direto, da promessa de justiça redistributiva sem maquilhagem. A imagem segue a mesma linha: Mariana Mortágua séria, de frente, sem adereços. Um cartaz que fala para dentro, para os fiéis, mais militante do que sedutor. Resultado: preservou o núcleo duro, mas teve dificuldade em captar novos eleitores. Talvez porque, num tempo marcado pela incerteza, a contundência já não baste.
O Livre opta por outra retórica: a da leveza plural. “Para ser livre” é mais um convite do que uma promessa. A frase paira, sem objeto direto, aberta à interpretação. No fundo branco, vários rostos emolduram o líder Rui Tavares. Não há dureza, há uma estética solar. A imagem quer acolher, não dividir. A narrativa é de inclusão, de futuro verde e justo, de política como pacto ético. E a resposta chegou: o partido cresceu, e muito. Porque soube captar um tempo novo, em que muitos eleitores querem acreditar mais do que reagir.
Já o cartaz do Partido Socialista parece saído de um manual técnico: é funcional, mas frio. “Dentistas nos centros de saúde” soa a medida administrativa, não a narrativa política. Pedro Nuno Santos surge num plano frontal, com a expressão contida e um sorriso discreto. O fundo verde e vermelho – cores da bandeira nacional – reforça a ideia de institucionalidade e de pertença. O cartaz transmite sobriedade e sugere que a confiança deve recair no programa, mais do que na emoção. Mas foi precisamente essa contenção que poderá ter sido decisiva: a mensagem passou, mas não ficou. Terá faltado imaginação simbólica, e, nessa medida, uma ideia mobilizadora de país.
Em síntese e acima de tudo, os cartazes revelam que fazer política é também contar histórias. Há quem grite, há quem abrace e há quem prometa. Cada escolha revela uma ideia de país e uma forma de se dirigir às pessoas. O Bloco falou em nome da justiça, o Livre em nome da esperança, o PS em nome da eficácia. As urnas corresponderam a essa linguagem: gritar convenceu menos do que sugerir; prometer menos do que inspirar.
No espaço público, os cartazes são signos em circulação: são fragmentos de discurso onde se disputam significados e se ensaiam futuros. Como dizia Umberto Eco, qualquer imagem é uma mensagem em aberto: não diz tudo, mas diz o bastante para a completarmos. Neste jogo de interpretações, nenhum cartaz é apenas uma questão de gosto: é sempre também uma proposta de leitura do mundo.
