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Opinião: As complexidades do “eu”

22 de julho de 2024 às 10 h03
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Quem és tu? A esta pergunta, nós respondemos pelo nome, talvez pela profissão ou gostos pessoais, pela nossa história, talvez família, um pouco ou muito pelo que gostaríamos de ser, mas nada disto responde concretamente à pergunta.

Se, em espelho, perguntarmos “quem sou eu?”, a resposta será ainda mais difícil. A única coisa que sabemos é que somos o mesmo que éramos antes. Mas quando? Ontem? Há dez anos? Desde que nascemos?

Sim, sabemos que éramos então completamente diferentes, mas temos a noção de que éramos a mesma pessoa que somos agora, e sabemo-lo bem quando nos confrontamos com uma fotografia passada. Em que ficamos?

Muito confuso ficou Vitangelo Moscarda, um personagem saído do romance de Pirandello, “Um, Ninguém e Cem Mil”. Ao aperceber-se de que tinha um pequeno defeito no lábio de que não se tinha antes apercebido, Vitangelo começa a confrontar as outras pessoas e descobre que ele, para elas, era diferente daquilo que era para ele próprio. Se é uma pessoa para cada um que a vê, já não sabe quem ele é. Se pensava que era um, será agora cem mil, tantos quantos o conhecem, ou ninguém. Conformado com isso, acaba por descrever uma cena hilariante passada na sua sala: “… certos como estavam de que ali, naquela sala, estávamos agora três e não nove; ou antes, oito, visto que eu – por mim mesmo – já não contava. Que seja: 1 ) Dida, como era para si própria; 2 ) Dida como era para mim; 3 ) Dida, como era para Quartonzo; 4 ) Quartonzo, como era para si próprio; 5 ) Quartonzo, como era para Dida; 6 ) Quartonzo, como era era para mim; 7 ) O querido Gengé (o narrador), de Dida; 8 ) O caro Vitalino (ainda o narrador), de Quartonzo. Naquela sala de estar, entre aqueles oito que se julgavam três, preparava-se uma bela conversa”.

Espero que numa qualquer reunião em nossa casa não fiquemos tão confusos como o personagem de Pirandello. Contamos as pessoas, podemos saber o seu nome, a sua história, mesmo a sua família e não nos preocupamos muito com o modo como nos vêem. Mas uma pequena reflexão lembrar-nos-ia que os outros não nos vêem como sujeitos e se estão nas tintas para o facto de nos sentirmos os mesmos de há 10 anos, ainda que observem as fotografias de então. Ou seja: os outros vêem-nos como objectos e muito pouco como sujeitos, talvez cada um de sua maneira e todos de modo diferente de nós próprios. Afinal, Pirandello tinha razão.

Luigi Pirandello ganhou o Prémio Nobel da Literatura em 1934. Foi mais conhecido como dramaturgo e escreveu obras inesquecíveis, entre as quais “Seis Personagens à Procura de um Autor”. A sua vida foi controversa e teve detractores e admiradores. A esposa, doente de ciúmes apesar da dedicação do marido, acabou a vida num sanatório. Pirandello correspondia-se com um psiquiatra vienense, o Dr. Jakob Lewis Moreno, fundador do Psicodrama, e influenciou decisivamente alguns filósofos, como Jean-Paul Sartre. Ninguém, como ele, soube deslindar as complexidades que estão por detrás da pergunta “Quem sou eu?”.

Autoria de:

Pio Abreu

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