Opinião – Ainda sobre o (valor do) Ensino Superior
O que se aprende no Ensino Superior (ES)? Alguns exemplos: pensar de forma crítica, resolver problemas complexos, argumentar, analisar situações diferentes e disruptivas e traçar cenários, pesquisar e estar atento à inovação, curiosidade e criatividade, falar em publico, gerir tempo e compromissos, ser fiável e responsável, ser e estar consciente do mundo. Os jovens adultos têm grande predisposição para gerir estas oportunidades. As Instituições de Ensino Superior (IES) devem ser ambientes humanistas, com tolerância ao erro e abertura à inovação e experimentação, promotores de soluções alternativas e “fora da caixa”, ajuda, orientação e mentoria. O relatório da OCDE–Education Spotlights, 2025 aponta: “a educação em Ciência tem de proporcionar oportunidades de educação de elevada qualidade, equitativas e que suportem a literacia científica como um direito fundamental, preparar os estudantes para serem flexíveis, adaptativos, criativos e socialmente conscientes, curiosos sobre o mundo que os rodeia e capazes de viver e trabalhar num mundo em constante mudança”. Tal deve estar associado a todas as áreas do saber e manter-se como um desígnio da aprendizagem ao longo da vida.
O caminho do ES em Portugal é pleno de desafios: se nos anos 70 e 80 o acesso era reduzido e com % inferiores a 2 dígitos de população ativa com licenciatura, hoje estamos alinhados com a média Europeia mas o salário associado ao grau desvalorizou. Os salários de entrada dos licenciados são próximos do mínimo, estágios sem remuneração e políticas públicas sem o impacto necessário. O Expresso, em fev/24 e baseando-se em dados do INE, referiu que 75% dos jovens entre 18 e 35 anos ganham até 1000€, 4% de 1500 a 2000€ e 2% aufere mais de 2000€. Dados de junho do INE indicam como a renumeração média é influenciada pelo nível de intensidade do conhecimento, sendo os mais bem pagos os dos “Serviços de alta tecnologia com forte intensidade de conhecimento” (média mensal bruta total de 2.856€) e os dos “Serviços financeiros com forte intensidade de conhecimento” (2.865€), um total de 273.000 profissionais. O grau académico aumenta a competitividade das carreiras e tem impacto durante toda a vida ativa e também na reforma.
Este ano, o número de candidatos e colocados no ES caiu: num ano com exigências atípicas, o funil apertou e não há alinhamento das vagas com o que os estudantes pretendem. Em Coimbra, e após a 2.ª fase, mais de 20% das vagas estão por preencher no Politécnico. Espera-se que estes temas sejam objeto de discussão nas autárquicas: o futuro depende de todos os jovens e do valor que trazem a cada uma das regiões, das empresas que criam e que se fixam nessas geografias, da proximidade que têm com as famílias promovendo o envelhecimento ativo dos seus pais e avós.
Cada estudante, cada família, decide o seu futuro de acordo com as suas ambições. Cabe a quem gere as cidades onde vivem e as IES onde estudam criar condições para garantir que essa permanência assegura as oportunidades que todos necessitam.

