Opinião: A aura perdida e reencontrada
A frase do Ministro da Educação – “Professores em manifestações perdem a ‘aura’ da profissão” -, dita há dias, é particularmente interessante, ao recuperar um termo tão rico em subtilezas. Na verdade, o que é a “aura”? É ao filósofo alemão Walter Benjamin, muito estudado nos cursos de comunicação, que inevitavelmente temos de recorrer. Nos anos 30 do século passado apresentou de forma magistral a noção de aura – tornando-a um dos seus conceitos mais inspiradores. Num célebre texto sobre arte, Benjamin descreveu a aura como a qualidade única, irrepetível e distante de uma obra, vinculada à sua autenticidade e ao seu “aqui e agora”. O conceito pode aplicar-se a todas as realidades, e remete para uma espécie de prestígio simbólico, para uma distância reverencial que separa a obra (ou o objeto, o lugar ou a pessoa) do observador. É esta distância que lhe dá autoridade e solenidade: a autoridade silenciosa que emana de algo único, irrepetível, situado num tempo e num espaço intocáveis.
Se aplicarmos esta grelha ao campo educativo, a “aura” do professor corresponde à dimensão simbólica de autoridade, respeito e legitimidade social que tradicionalmente envolve a figura docente. O professor, enquanto detentor de saber e mediador do conhecimento, surge com uma dignidade que o distancia da esfera comum, quase como uma figura de referência moral e intelectual. Ao dizer que os professores “perdem aura” quando se manifestam, o Ministro sugere que a ação reivindicativa – os docentes na rua, em protesto – retira-lhes essa distância reverencial. Transforma-os em figuras comuns, próximas do conflito social, em vez de guardiões de uma autoridade intocável. Como se integrar uma manifestação fosse uma forma de “profanar” a aura da profissão.
Ora, esta é apenas uma das faces da aura – e, diria, a menos interessante. Benjamin diz-nos que a perda da aura é um facto histórico inevitável e ambivalente – mas que é de igual modo uma condição que abre possibilidades radicalmente novas de acesso e de experiência. Pensemos num exemplo simples. Uma pintura de Van Gogh, guardada num museu, está absolutamente cheia de aura: poucos a podem ver, e apenas em condições controladas, sempre à distância. Já a fotografia dessa mesma obra, impressa numa t-shirt ou numa capa de smartphone, perde esse brilho único. Mas ganha algo de diferente: ganha sentido público, é acessível a milhões de pessoas, permite a sua fruição e múltiplas formas de apropriação criativa. A aura da distância dá lugar à proximidade da experiência partilhada. A sua existência entrelaça-se com a comunidade, com o seu pulsar, com os seus afetos.
Ora, assim como a fotografia tira a obra de arte do museu e a leva para o domínio público, a manifestação tira o professor do pedestal intocável da sala de aula e coloca-o no espaço comum do debate cívico. Quando os professores “descem à rua”, não perdem a dignidade: reconfiguram a sua aura, acrescentam-lhe camadas. Ao mobilizar um conceito benjaminiano tão forte (mesmo que talvez sem intenção), o comentário do Ministro acaba por revelar um entendimento conservador da aura: como se o prestígio docente dependesse do silêncio, da distância, da ausência de conflito. Benjamin lembra-nos o contrário: perder a distância não é perder valor. É ganhar proximidade e vida.
O professor que protesta não perde a aura: submete-a ao processo de reprodução social. A sua autoridade já não emana de uma esfera intocável, mas reproduz-se na palavra partilhada, no gesto coletivo, quando se entrelaça com a comunidade e com a cidadania ativa.

