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Opinião: 2025, o ano em que a democracia se vê ao espelho

13 de dezembro de 2025 às 11 h43
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Assistimos à mudança da paisagem política portuguesa de forma cada vez mais preocupante. O crescimento do discurso abertamente fascista tem introduzido no espaço público uma normalização – diria mesmo uma banalização perigosa – de racismo, xenofobia, misoginia e da própria erosão de direitos sociais, humanos e laborais. 2025 está a revelar, com uma nitidez difícil de ignorar, que a nossa democracia já não pode dar por adquirido o que durante décadas pareceu inabalável. Mas o que mais impressiona não é apenas o ódio dito em voz alta a que nos habituaram ultimamente nesse espaço publico, e que hoje se infiltra, reflete e reproduz nos micro-espaços do trabalho, e a facilidade com que muitos começam a aceitá-lo como parte do ‘debate democrático’.

Entre os alvos centrais deste retrocesso estão as mulheres. Já não estamos a falar das mesmas mulheres de há um século atrás. Portugal tem as gerações de mulheres mais qualificadas da sua história. Ocupam posições de liderança, sustentam famílias, investigam, ensinam, cuidam, mantêm vivo o serviço público e a economia. E, ainda assim, são o alvo preferencial de discursos que procuram desconstruir ou relativizar direitos fundamentais conquistados com décadas de luta. É um espelho difícil de encarar: um país que forma e eleva as suas mulheres, mas que simultaneamente permite que sejam atacadas no espaço público.

Ao atravessarmos o país, entre o interior esquecido e o litoral onde a crise se mascara sob a aparência de normalidade, as desigualdades tornam-se mais visíveis. No interior, persiste a dureza do esquecimento; no litoral, uma prosperidade aparente assente num quotidiano frágil, onde antigas classes médias lutam para não cair, quando todas as outras já foram empurradas para velhas formas de precariedade urbana, incluindo bairros de lata que as acolhem. E é neste país cada vez mais desigual e precário que se mantém uma desconcertante desconexão governativa perante a erosão de direitos laborais, sociais, das mulheres e dos migrantes.

Ouvir a diversidade de opiniões é essencial em democracia. Mas a pluralidade não significa legitimar ideias que representam retrocessos civilizacionais. Em 2025, aceitar que se volte atrás nos direitos das mulheres e dos trabalhadores, direitos conquistados com décadas de luta, é simplesmente inaceitável. A história ensinou-nos o preço do silêncio: quem se cala, consente; quem relativiza ao limite, normaliza; quem olha para o lado, abre espaço aos que querem recuar no tempo. É por isso fundamental manter os olhos abertos e não nos deixarmos iludir por fórmulas populistas que oferecem respostas simples para problemas complexos, substituindo soluções por bodes expiatórios, difamação e distração.

O que está em causa não é apenas uma disputa partidária. É a integridade da nossa vida democrática e a proteção dos direitos que a tornaram possível. Retirar direitos não pode ser uma escolha política aceitável, nem reduzido a um mero ajuste de prioridades governativas. Pelo contrário. É um retrocesso histórico perigoso que deve ser nomeado, denunciado e enfrentado.
O medo, o ódio, o descontentamento, a revolta ou a indiferença não podem derrubar o que demorou décadas a construir. Não podemos aceitar uma sociedade que normaliza o insulto, o abuso e a desigualdade. Que nos empobrece continuamente. A democracia não se defende sozinha. Está visto que temos de a vigiar constantemente.

À medida que o ano chega ao fim, é inegável a fragilidade da democracia que 2025 refletiu, a facilidade com que direitos podem ser corroídos, e a urgência de uma vigilância cidadã madura. Que 2026 nos traga não apenas esperança, mas sobretudo a determinação necessária para enfrentar esta encruzilhada histórica. A democracia não se renova sozinha, ela precisa do gesto que simultaneamente recusa o retrocesso e afirma, sem hesitação, a dignidade humana como valor inegociável.

Autoria de:

Fátima Alves

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