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O país que abandonou os seus velhos

17 de junho de 2026 às 08 h45

Há realidades tão evidentes que a política prefere não as encarar. O envelhecimento da população portuguesa é uma delas. Não se trata de uma ameaça futura nem de uma projeção estatística distante. É uma transformação estrutural já em curso, visível em cada aldeia despovoada, em cada centro de saúde sobrecarregado, em cada família confrontada com o peso crescente da dependência e da fragilidade.

Contudo, apesar da dimensão do desafio, Portugal continua a comportar-se como se dispusesse de tempo ilimitado para adiar decisões. Durante décadas, a governação habituou-se a confundir gestão com visão estratégica, privilegiando o imediato em detrimento do essencial. Vive-se ao ritmo das sondagens, dos ciclos eleitorais e da sucessão incessante de polémicas que alimentam o comentário político. Entretanto, o país real envelhece, silenciosamente, à margem das prioridades nacionais.

Nada disto surgiu de forma inesperada. Há muito que sociólogos, economistas e profissionais de saúde alertam para a inevitabilidade desta trajetória. A redução da natalidade, o aumento da esperança de vida e a alteração profunda da estrutura etária da população eram tendências conhecidas e amplamente documentadas. O que faltou não foi conhecimento. Faltou vontade política para pensar para além da próxima legislatura.

Mas o problema que enfrentamos transcende largamente a esfera económica. É, antes de mais, uma questão moral. A forma como uma sociedade trata aqueles que já deram o seu contributo constitui talvez o mais rigoroso teste à sua maturidade cívica.

E aquilo que hoje observamos deveria inquietar-nos. Milhares de idosos vivem em situação de isolamento. Muitos enfrentam a velhice com recursos limitados, e uma rede de apoio cada vez mais frágil. Outros dependem do esforço quase invisível de familiares que conciliam trabalho, filhos e responsabilidades de cuidado, frequentemente sem reconhecimento nem apoio adequado.

Paradoxalmente, nunca dispusemos de tantos recursos materiais, de tanta tecnologia ou de estruturas públicas tão complexas. E, no entanto, nunca foi tão evidente o enfraquecimento dos laços comunitários e familiares que durante gerações constituíram o cimento invisível da sociedade portuguesa. Em nome de uma ideia de progresso frequentemente reduzida ao individualismo e à autonomia absoluta, fomos negligenciando a importância dos vínculos que ligam as gerações entre si.

A política, por seu lado, parece ter-se resignado à lógica do remendo permanente. Produzem-se estratégias, relatórios e planos de ação em abundância. Multiplicam-se as declarações de intenção. Mas a realidade permanece teimosamente inalterada. Os cuidadores continuam exaustos. As respostas sociais revelam-se insuficientes. E o país continua sem uma verdadeira estratégia para enfrentar o mais previsível dos seus desafios. Talvez porque admitir a gravidade da situação implicaria reconhecer um fracasso coletivo. Durante demasiado tempo, discutiram-se indicadores económicos e reformas administrativas enquanto se ignoravam os fundamentos humanos sobre os quais assenta qualquer projeto nacional duradouro. Falou-se de crescimento, mas esqueceu-se a demografia. Falou-se de modernização, mas negligenciou-se a sustentabilidade social.

A verdade é desconfortavelmente simples. Nenhum sistema de pensões permanecerá viável indefinidamente com menos trabalhadores e mais reformados. Nenhum Serviço Nacional de Saúde conseguirá responder eficazmente sem uma estratégia adequada para uma população progressivamente mais envelhecida. E nenhuma sociedade preservará a sua coesão se abandonar aqueles que a edificaram.

Os portugueses que hoje envelhecem pertencem à geração que trabalhou, produziu riqueza, sustentou instituições e construiu o país democrático que herdámos. Merecem mais do que homenagens ocasionais ou promessas eleitorais convenientemente esquecidas após cada sufrágio. Merecem uma política capaz de olhar para além da conjuntura, e de reconhecer que a dignidade na velhice não é uma concessão do Estado, mas uma exigência de justiça.

Porque uma nação não se mede apenas pelo crescimento da sua economia ou pela modernidade das suas infraestruturas. Mede-se também pela forma como honra aqueles que lhe dedicaram uma vida inteira. E um país que falha aos seus velhos, dificilmente encontrará legitimidade moral para prometer um futuro melhor aos seus jovens.

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