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O contexto

24 de abril de 2026 às 10 h15

Cristina Ferreira disse o que disse no programa “Dois às 10”. Já toda a gente o sabe, e há quem a defenda e quem a critique. A própria falou sobre o assunto em directo na televisão, durante a emissão do Jornal da Noite, da TVI, lamentando os ataques que a visam. Disse ainda que não fez um comentário, mas sim uma pergunta, reconhecendo que poderia ter formulado a questão de outra forma. A empresa, entretanto, emitiu um comunicado lamentando “…a forma, o tom, a descontextualização e a manipulação grosseira com que as palavras da apresentadora estão a ser interpretadas e disseminadas.” Sem entrar nas palavras propriamente ditas por Cristina Ferreira, o comunicado da TVI é, em si mesmo, uma descontextualização grosseira.

Isto porque de quem se esperaria um comunicado, que não há-de ver a luz do dia, é da dona da TVI, a Media Capital, que tem um Código de Conduta que se aplica aos seus administradores e quadros dirigentes, bem como aos das empresas que integram o grupo e às empresas por ele detidas maioritariamente. E Cristina Ferreira integra todas estas categorias: ela é administradora executiva da Media Capital, que é dona da TVI, empresa esta onde ela assume o cargo de Directora de Entretenimento e Ficção, bem como, por intermédio da empresa DoCasal Investimentos (onde tem uma quota de 89%), detém 2,5% do capital social da Media Capital. O dito Código vincula todas as pessoas que trabalham para o Grupo Media Capital, independentemente da sua localização geográfica, da responsabilidade que exerçam e da modalidade contratual que determina a sua relação com o Grupo, que têm de cumprir os princípios nele descritos.

No referido Código, o Grupo Media Capital declara-se ciente do expressivo alcance dos seus órgãos de comunicação. Está, por isso, comprometido com a sociedade, que quer estimular para a educação e a consciencialização para temas sociais. Diz o grupo que este compromisso materializa-se na promoção do bem-estar das pessoas, uma visão suportada num conjunto de valores e princípios que norteiam, de forma transversal, a conduta organizacional e as actividades de todo o grupo. Um deles é o desenvolvimento das suas competências, com profissionalismo e inovação, através do aperfeiçoamento contínuo dos seus conhecimentos técnicos e da qualidade dos serviços prestados. Algo que parece ter falhado quando se reconhece que a dita questão poderia ter sido colocada de outra forma (mas ninguém pediu desculpa por isso).

Outro princípio assumido é de ter uma postura construtiva na resolução de problemas, quer a nível interno, quer no contacto com o público em geral, algo que também não parece estar de acordo com o teor do comunicado divulgado, que termina com a ameaça generalizada dos tribunais. Ainda o ano passado, o CEO da Galp demitiu-se na sequência de uma investigação da Comissão de Ética da empresa, por causa de uma denúncia anónima sobre um alegado relacionamento amoroso com uma diretora da petrolífera que não teria sido comunicado à empresa. Já o Grupo Media Capital afirma respeitar a privacidade e intimidade das pessoas. Mas neste caso que envolve Cristina Ferreira está tudo dito, gravado, entrevistado e comunicado publicamente, sem necessidade de qualquer investigação (desconhece-se se houve denúncias internas) e, pelos vistos, sem quaisquer consequências.

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