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A invisibilidade

24 de abril de 2026 às 09 h30

Ser invisível é a sensação que se apropria dos funcionários sem nome, daqueles que chegam de manhã, fazem o seu labor e ninguém cumprimenta, ninguém se permite uma graçola, um apontamento. A invisibilidade pode magoar porque entra na fronteira da indiferença, na dor da insignificância. Nos dias de hoje os invisíveis possuem instagram, envaidecem-se no facebook, abandonam os túneis após o tempo laboral e revelam-se, iluminam-se. Não esquecem os momentos de modéstia, de subalternização que viveram horas antes, e vingam-se na exacerbação do eu. Um eu poderoso, tatuado, carregando inúmeros adornos, exibido em fotos e pequenos vídeos. Há quem se aventure pela opinião em relação a inúmeros assuntos. A ignorância é atrevida e sem verificação, desabrochando para o mundo qualquer coisa.

O eu vendável, o eu comercializável, o eu pago por likes e seguidores compensa a invisibilidade da manhã. A toupeira é agora um coelho e pula, brinca, abana-se. O invisível fala alto ao telefone e coloca-o em voz alta. Ele mostra-se como um doutor, como um ser significado.

Portugal deu poder aos invisíveis e desse modo retirou os uniformes das escolas, as fardas das prisões, os limites comportamentais em lugares públicos, abdicou de exigências no decoro das vistas às igrejas, reduziu exigência e sofisticação. Os invisíveis são incompletos na cultura e na sabedoria, no sentido crítico e na capacidade de autorregulação. A simplicidade da baixa informação carrega a toleima, a verve sem sustentação, a falta de alicerçamento das ideias. Assim o incompleto decide mal e impregna as decisões de incorreções grosseiras. Não sabe e não cuidou de se informar, porque nem lhe ocorre a ideia da vastidão do que desconhece.

O vaidoso é o que julga os outros de modo fácil e preconceituoso, aquele que se arvora dono da verdade, o que nunca espreitou o lado de trás da sua rua, o que nunca se questionou do canto dos pássaros. A hipérbole da vaidade inculta, ouvimos do que acha que o pardal chilreia mal.
– devia ter outro canto!

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