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O bom, o mau e os vilões

04 de dezembro de 2025 às 11 h23

Recordemos brevemente a evolução histórica do ensino secundário no nosso país.
Durante o período do chamado estado novo, o ensino profissional foi visto como a via escolar que se destinava aos filhos das classes desfavorecidas, formadora dos que iriam ser empregados daqueles que a sorte mais bafejara. Estes últimos tinham o liceu, onde cabiam os mais “sortudos”…

Com o 25 de abril renovou-se a Escola e, na tentativa de apagar a distinção social, iniciou-se a fusão dos ensinos liceal e técnico com a extinção do ensino técnico em 1975 e a entrada em vigor do ensino secundário unificado em 1976 com programas e exigência únicos. Curiosamente, ainda hoje muita gente fala do “liceu” quando se quer referir ao ensino secundário. Para não maçar quem lê, acrescento apenas que ao longo dos anos foram sendo introduzidas pequenas alterações a este quadro de referência. Porém, algum tempo depois da unificação do ensino, sentindo a falta da via profissional, autarquias e outras entidades públicas e privadas decidiram-se pela criação das escolas profissionais, mitigando a sentida falta de formação profissional, particularmente para os jovens que não queriam ascender ao ensino superior. Tuteladas pelo ministério da Educação as escolas profissionais permitem a inserção socioprofissional ou o prosseguimento de estudos. Posteriormente, com recurso aos fundos europeus, puderam as escolas de ensino regular abrir também cursos neste âmbito.
Vem tudo isto a propósito da inauguração do Centro Tecnológico Especializado Industrial (CTEI) a que procedeu a Escola Secundária Avelar Brotero e que teve honras da presença do ministro da pasta.

A Avelar Brotero sempre foi uma escola com grande dinamismo e qualidade. O ministro disse- e bem- que o ensino profissional é uma opção cada vez mais valorizada. Ana Abrunhosa, presente na cerimónia na sua qualidade de presidente da câmara municipal, relembrou a meta nacional de 50% dos alunos do secundário em vias profissionalizantes até 2030.
Também aí a Avelar Brotero esteve e estará na primeira linha dos candidatos a ministrar cursos profissionais com sabedoria, elevada qualidade pedagógica e muito entusiasmo. Os resultados aí estão, para quem os quiser ver. Parabéns!
Vejamos o reverso da moeda do querer educação e formação com qualidade.

Uma notícia que me deixou profundamente incomodado. Cito a página oficial da APPACDM da Figueira da Foz: “APPACDM (Associação Portuguesa de Pais e Amigos do Cidadão Deficiente Mental) Delegação da Figueira da Foz é uma Instituição Particular de Solidariedade Social, que iniciou a sua atividade no ano de 1991, de âmbito nacional cujos objetivos consistem na promoção da integração da sociedade do cidadão com deficiência mental, no respeito pelos princípios de normalização, personalização individualização e bem-estar.”

Pois bem, há quem queira desalojar esta instituição que serve a população, com uma obra inestimável, de apoio àqueles que têm problemas de saúde mental, ajudando à sua autonomia e inclusão social. Alguma vizinhança alega que os utentes fazem muito barulho, desejando o despejo das instalações que ocupa. Pelo que me dizem, a maioria dos utentes desta associação sai às 17h30, o que faz cair por terra o argumento do descanso dos moradores. O mais curioso é que a moradora que em sessão de câmara fez a denúncia da situação, terá impedido a entidade responsável de medir o ruído em sua casa, quando para isso solicitada.

Estamos aqui perante um caso claríssimo de violação de direitos, de desumanidade, de vontade de que haja exclusão social, de gente que não entende que todos os cidadãos, uns mais assim e outros mais assim-assim, têm direitos e deveres. Em boa verdade, estamos perante um pequeno núcleo de gente que não respeita e não entende as diferenças e para quem os cidadãos com deficiência devem ser arrumados num canto da vida.

Infelizmente, este discurso da exclusão das diferenças está a fazer um caminho que deverá preocupar todos os que querem uma sociedade mais justa e mais fraterna. Solidário que estou com utentes e trabalhadores que se esforçam pela integração, faço votos para que o bom senso prevaleça e que a vizinhança entenda que essas pessoas são tão úteis socialmente como os que compõem o condomínio. Mas independentemente da solução encontrada fica o exemplo triste de quem olha para o seu umbigo.

Última nota. Numa freguesia do concelho da Figueira da Foz estão sem professor 12 alunos de uma turma, porque a docente ali colocada alegou “bournout” depois de constatar a indisciplina de alguns dos estudantes. Trata-se de alunos do 1º ciclo (antigo ensino primário)! A escola não é só da responsabilidade dos professores; é também das famílias, a quem cabe educar para que os professores possam ensinar. Roubo um excelente texto do meu colega José Afonso Batista, em que lamenta que cada vez haja mais gente a não tomar a vacina da educação. Assunto que também referi no meu texto do dia 6 de novembro deste jornal, sem o brilhantismo do José Afonso. Sei que a direção do Agrupamento a que pertence a escola tem feito os possíveis por colmatar a situação, o que não tem sido fácil. Não sei mesmo se no momento em que escrevo já houve solução. Mas assinalo o caso, porque também ele merece ser referido.

Bem ou mal dispostos, as meninas e os meninos têm mesmo de aprender para poderem um dia enfrentar o mundo que não lhes vai ser fácil.

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