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Modernizar aqui ou ali

13 de janeiro de 2026 às 11 h32
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Em Portugal existe ainda, em demasia, uma ilusão confortável: a de que é possível proteger o emprego recusando a modernização das empresas. Esta ideia, repetida até à exaustão no debate público, tem sido particularmente nociva nas regiões menos densamente povoadas, onde o tecido empresarial é mais frágil, envelhecido e excessivamente dependente de modelos produtivos de baixo valor acrescentado. Defendo que esta visão não só está errada como é uma das principais responsáveis pela estagnação económica fora das áreas metropolitanas.

Para a maioria das pequenas e médias empresas do interior, modernizar não é uma escolha estratégica entre várias opções possíveis; é uma questão de sobrevivência. Empresas que não investem em tecnologia, organização, digitalização e qualificação dos seus trabalhadores ficam presas a margens mínimas e a mercados demasiado voláteis. Vivem dependentes de custos baixos, de contractos instáveis e de decisões, na maioria das vezes, tomadas fora dos territórios que ocupam. Quando o contexto muda — e muda sempre — essas empresas tendem a desaparecer, levando consigo emprego, rendimento e capacidade de fixar população.

Pelo contrário, quando estas empresas modernizam processos, adoptam ferramentas digitais e apostam na melhoria contínua, tornam-se mais produtivas e mais resilientes. Ganham capacidade para negociar melhor com clientes, diversificar mercados e resistir a choques externos. Nos territórios de menor densidade, este salto é decisivo: permite manter actividade económica local, reduzir a dependência de apoios públicos e criar empregos menos precários e mais qualificados.

Importa desmontar um mito recorrente: a modernização não destrói emprego; transforma-o. A introdução de tecnologia não elimina pessoas, elimina tarefas repetitivas e de baixo valor. O que surge em seu lugar são funções que exigem mais competências, maior autonomia e melhor remuneração. Nas regiões do interior, este processo é essencial para reter jovens qualificados que, de outra forma, continuarão a emigrar para os grandes centros urbanos ou para o estrangeiro. Sem modernização, não há fixação de talento; sem talento, não há futuro económico.

Há ainda um efeito frequentemente ignorado: empresas mais modernas criam ecossistemas à sua volta. Precisam de serviços especializados, fornecedores mais qualificados, manutenção tecnológica e formação contínua. Cada empresa que sobe na cadeia de valor torna-se, adicionalmente, um agente dinamizador do território onde se insere. É assim que se constrói desenvolvimento sustentável, e não através da mera preservação de modelos produtivos esgotados.

Neste contexto, os sindicatos têm uma responsabilidade acrescida. Uma parte significativa do movimento sindical português continua presa a uma leitura excessivamente conservadora da economia, encarando a modernização como uma ameaça em vez de a assumir como uma oportunidade de valorização do trabalho. Ao tentar preservar modelos laborais do passado, acaba por dificultar a adaptação das empresas à realidade actual e, paradoxalmente, por fragilizar os próprios trabalhadores que diz defender. Defender emprego hoje implica defender formação, requalificação e inovação, não a negação da mudança.

Modernizar as empresas portuguesas — sobretudo fora dos grandes centros — é a única via para criar emprego duradouro, qualificado e enraizado no território. Tudo o resto é adiar decisões inevitáveis. E a história económica do país mostra-nos que, quando adiamos demasiado, o preço a pagar é sempre elevado — e quase sempre pago pelas regiões que menos podem esperar.
A modernização, sendo verdadeiramente necessária — que é —, não pode ser selectiva: não faz sentido aceitá-la com naturalidade no conforto do quotidiano ou na esfera social e recusá-la no âmbito laboral, como se o progresso pudesse ser compartimentado sem custos para o futuro colectivo.

Por decisão pessoal, o autor do texto não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico.

Autoria de:

Christophe Coimbra

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