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Memórias de Ormuz (parte 3) Irão-2012

28 de março de 2026 às 10 h45

Cheguei a Bandar Abbas durante a madrugada. Foi um choque térmico sair do autocarro com ar condicionado apanhar com os mais de trinta graus centígrados que se faziam sentir, a que se acrescentava uma humidade que me fazia transpirar o corpo como se fosse de dia. É uma experiência estranha estarmos parados, de noite, e sem fazermos qualquer esforço, e vermos o nosso corpo a encharcar-se em suor de tal maneira.
Aquela hora, tive mesmo de pagar a um taxista para conseguir chegar ao Darya Hotel, o alojamento mais caro onde fiquei neste país. Mas não foram de todo um desperdício de dinheiro os 12€ que desembolsei pela noite, já que não teve preço a sensação de chegar finalmente a um quarto só para mim, onde teria a possibilidade de tomar o duche bem relaxante de que tanto necessitava há já tantos dias.
Acordei de manhã com um entusiasmo desmedido para ir visitar algo que povoava a minha cabeça desde a juventude. Foi no meu livro de História do 8.º ano que fiquei a conhecer Ormuz, uma das grandes praças fortes que os portugueses mantiveram no Oriente ao longo de um século. Conquistada em 1515 por Afonso de Albuquerque, esta ilha estrategicamente localizada para controlar o estreito entre Oceano Índico e o Golfo Pérsico cedo veria a ser aí construída uma enorme fortaleza, que ainda hoje é das maiores do Irão.
Chegava finalmente o momento de visitar esta antiga feitoria. Apanhei um barco sob um sol escaldante, com os termómetros a marcarem 51 graus. Como a sua velocidade era moderada, aproveitei para meter os pés de fora, a tocar numa água estranhamente quente, algo que não estava habituado, e assim segui viagem a sentir os salpicos que a ondulação me atirava para a cara numa tentativa um tanto falhada de me refrescar.
Ao aproximar-me, começa a sobressair no horizonte a tonalidade avermelhada que caracteriza esta ilha. Já com os pés novamente em terra firme, segui caminho pela areia de uma praia suja, mas cheia de crianças a brincar. Não faltam por aqui pescadores a escolher peixe que em breve estará à venda na lota, enquanto outros vão fazendo, ou refazendo as redes que levarão na noite seguinte para o mar.
Todos olham para mim e me cumprimentam com genuína simpatia e curiosidade, ao que lhes respondo “Portugal”. Apontam logo para a velha fortificação que fica ao fundo da avenida, percebendo o porquê de eu ali estar. (continua)

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