Pelos arrozais de Mai Chau (parte 3) – Vietname-2025
A vida é pacata por este vale. Os comerciantes não insistem a tentar impingir os seus produtos, os agricultores ainda acenam com genuíno afeto quando nos saudamos, e as crianças ainda mostram espanto pela nossa presença no seu território.
O mesmo se pode dizer dos animais que por aqui andam à solta, já que não mostram um mínimo de medo ou de agressividade para com os humanos. São meigos, curiosos e dão-se a quem lhes dá um pouco da sua atenção. Que o digam os cães que vêm ao nosso encontro e que me se metem a jeito a pedir algumas festinhas, ou mesmo fazer-se para a fotografia.
Ao fim do dia abate-se um temporal impiedoso. Os clarões dos relâmpagos espelham-se repetidamente nas águas que alimentam os arrozais, mas o estrondo que se segue mete respeito. Depois da tempestade, a bonança. Aí já havia condições para dormir em paz. Desliguei a luz, e fechei os olhos, sabendo que, depois de um dia em cheio, em breve iria ter com o João Pestana.

No silêncio e escuridão do quarto, um pacote de bolachas cai ao chão. Acendi a luz, e voltei a colocá-lo na prateleira onde estava. Cinco minutos depois, volta a cair agora um de batatas fritas. Estranhei, e fui-me certificar que não havia corrente de ar, pois a porta da varanda estava fechada. Luz novamente apagada, e caem agora as pipocas. Mas à terceira foi de vez. Como não acredito em fantasmas, fui mais rápido a acender a luz, e eis que apanho o larápio profissional com a boca na botija!
Um pequeno rato do campo, que me caberia na palma da mão, já deveria ter um doutoramento em assalto à pata desarmada, atribuído pelas suas doutas equivalências na arte do furto de comida alheia. Identificava o alvo, empurrava-o até cair ao chão e daí levaria a mercadoria por um dos vários buracos que trespassavam as finas paredes de madeira daquela divisão. Pior, acumulava também uma ímpar capacidade em matéria de fuga do local do crime, mas cometeu um percalço, já que se enganou no caminho e entrou na minha mochila. Foi o momento em que peguei nela, abri a porta do terraço e a deixei pousada no chão, no exterior.
Depois de gastar meia hora a tapar as frestas dessas paredes com papel enrolado, voltei novamente para a cama e tive um sono descansado enquanto o meu amigo do alheio dormia numa tenda improvisada que já tinha abandonado na manhã seguinte. (continua)

