Magnífica Humanidade
No dia 15 de maio o Papa Leão XIV publicou a sua primeira encíclica – sobre a salvaguarda da pessoa humana na era da Inteligência Artificial – Magnifica Humanitas (isto é, magnífica humanidade).
Já muito se escreveu e vai continuar a escrever sobre esta encíclica. Estou a ler ainda com a serenidade e a calma de quem saboreia uma refeição, sem presas e a tentar estar atento aos detalhes e pormenores.
A primeira encíclica de um Papa normalmente diz muito da sua visão e do ‘roteiro’ humano e espiritual do seu pontificado. Não é apenas um texto é uma ‘impressão digital’, uma ‘marca de água’ que frequentemente antecipa muito do que vai acontecer nos próximos anos.
O texto não é sobre IA, mas sobre o sentido da vida pessoal e os valores humanos e relacionais numa era marcada e determinada pela IA. Não bateu à porta, mas já está dentro de casa, trazemos nos nossos bolsos e está em cada clic do telemóvel. Não é contexto, ferramenta, mas ambiente mental, cultural e espiritual, como referiu o jesuíta António Spadaro na apresentação desta encíclica.
O Papa não se ficou apenas por este texto. No dia seguinte à publicação da encíclica criou uma Comissão interdicasterial sobre IA no Vaticano que reúne sete instituições.
O texto do Papa Leão coloca em confronto duas perspetivas: a lógica do domínio (associada à metáfora bíblica da Torre de babel) e a lógica da responsabilidade partilhada (associada à reconstrução das muralhas de Jerusalém no livro de Neemias).
Estamos no meio de uma revolução digital acelerada, policêntrica, fragmentada…. que não é neutra. Não se trata de dizer se é bom ou mau, mas de perceber como modifica o nosso modo de perceber e aceder à realidade, os nossos relacionamentos e até o nosso modo de acreditar…
Trata-se de uma releitura atualizada da Doutrina Social da Igreja na era da IA que reflete os fundamentos e os princípios chamando a atenção para novas formas de escravidão, novos pobres, novos excluídos… onde o poder tecnológico sacrifica o bem de todos em função da velocidade, do poder, do sucesso e eficiência.
A Magnifica Humanitas não esquece os migrantes, as mulheres, os trabalhadores invisíveis da cadeia digital, as crianças que trabalham nas minas de terras raras… os custos energéticos de cada procedimento e o impacto dos bancos de dados.
O que o Papa reclama é a possibilidade de “construir uma cidade onde Deus e a humanidade habitam juntos (…), onde a dignidade de cada pessoa seja salvaguardada, a justiça promovida e a fraternidade possibilitada” (nº 1).
Boa leitura para todos, altamente aconselhável para… crentes, para não crentes, para amantes da IA, para pessoas que estiveram muito ligadas à reflexão da Doutrina Social da Igreja, para direita e para esquerda, para filósofos, para engenheiros, para humanistas, para cientistas… para padres e para Bispos.
