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Magnifica Humanitas

26 de junho de 2026 às 10 h45

O rei Frederico Guilherme IV da Prússia patrocinou a construção do Observatório Astronómico de Bona, dirigido pelo seu amigo astrónomo Friederich Argelander. Numa visita ao recém-inaugurado observatório, em 1845, o rei terá inquirido: “Então que há de novo nos céus?” Argelander replicou imediatamente: “E Vossa Majestade já conhece o que é antigo?” Este relato clássico da história da ciência sublinha a importância de construir sobre as conquistas das gerações anteriores. Só o conhecimento do que é antigo (e perene) nos permite apreciar devidamente as novidades e encontrar soluções adequadas para os novos desafios. Tal requer ferramentas críticas, assentes em conhecimento de natureza fundamental, que os adeptos dos pensos rápidos providenciados pelo “pronto-a-pensar” tendem a desprezar.

A encíclica Magnifica Humanitas, publicada pelo papa Leão XIV, “sobre a salvaguarda da pessoa humana na era da inteligência artificial”, constitui antes de mais um exemplo desta forma de estruturar o pensamento como preparação para o encontro de soluções. Tendo como objetivo declarado a adaptação da Doutrina Social da Igreja aos novos desafios suscitados pela digitalização, pela inteligência artificial e pela robótica, a encíclica começa por elencar os sucessivos desenvolvimentos na reflexão da Igreja “sobre a sociedade, a economia e a política”. Não se limita a partir do marco representado pela encíclica “Rerum Novarum” de Leão XIII, mas retrocede ao mistério do Deus-Amor e ao rosto concreto de Jesus Cristo, bem como à “grande afirmação segundo a qual o homem e a mulher são criados à imagem e semelhança do Deus trinitário”.

Daí decorrem, na lógica de Cristo, princípios fundamentais da Doutrina Social da Igreja: a “verdade como bem comum, a tutela da dignidade do trabalho e a salvaguarda da liberdade contra todas as formas de dependência e de mercantilização”. Tais princípios são partilhados com todos aqueles que os fizeram seus, seja através da comum herança cristã, seja através da razão. A aplicação aos novos desafios é seguidamente aprofundada no texto da encíclica, em que se considera como a inteligência artificial “está a transformar certos aspetos da vida e da sociedade, com graves consequências para a dignidade humana”. Finalmente, é dedicado um capítulo à guerra, onde o Papa procura não só desarmar a teoria da guerra justa como aprofunda também a ideia de uma IA desarmada. Ao cinismo da Realpolitik contrapõe que “a paz não é uma esperança ingénua nem apenas uma ausência de guerra: é o fruto, sempre possível, da justiça e da caridade”.

À cultura do poder contrapõe-se assim a civilização do Amor, para a construção da qual ninguém está isento de responsabilidade.

Nas palavras de Tolkien citadas pelo Papa: “Não nos compete dominar todas as marés do mundo, mas sim fazer o que nos for possível no decurso dos anos que nos cabem, erradicando o mal nos campos que conhecemos para que quem viver depois possa ter terra limpa para amanhar.”

O que há de verdadeiramente novo, assim, nestes céus dos desafios colocados pelas novas tecnologias? E, nestes dias em que tanto se tem discutido a reforma laboral, empregadores, trabalhadores e legisladores conhecem ao menos o que é antigo na Doutrina Social da Igreja? Estamos todos a fazer o que nos compete para ajudar a erradicar as ervas daninhas, adversárias da dignidade humana, que despontam incessantemente no pedaço de terreno que nos coube amanhar?

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