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Integração de Cuidados na USL de Coimbra: publicidade teórica ou ilusão?

20 de novembro de 2024 às 12 h56

Em janeiro de 2024, o país ficou inteiramente coberto por 39 Unidade Locais de Saúde (ULS), concentrando no hospital (sede “mãe”) a organização de todos os recursos humanos, financeiros e materiais, de modo a facilitar o acesso dos doentes aos cuidados de saúde e a sua circulação entre os Centros de Saúde e os Hospitais, com uma expectável melhor coordenação dos serviços.
Mas passado quase um ano de gestão única, vamos à prática! Nos Hospitais-Centros de Saúde, continuamos a ter, por exemplo o incumprimento reiterado do Despacho nº6468/2016 que proíbe a transcrição de exames pelos médicos de família, pedidos pelos médicos do hospital, fazendo andar os doentes de casa para o hospital, do hospital para casa, depois, para o centro de saúde e novamente para casa. Depois agenda o exame no Centro privado/convencionada e depois, volta de novo ao hospital!
Diariamente, surgem inúmeros exemplos destes:
1. Email de uma grávida: “…o obstetra solicitou-me que eu pedisse gentilmente que o Dr. enviasse requisição para que eu possa fazer as análises e ecografia do 3º trimestre em laboratório externo, pois aqui na maternidade somente conseguem solicitar exames internos e a resposta está demorada. Será só depois do bebé nascer”.
2. Uma gravidez de risco (diabetes gestacional), tem alta da maternidade e tem que ir ao médico de família para lhe emitir uma credencial de análises para poder fazer no privado e assim poder ir à consulta na maternidade, 6 semanas após o parto!
3. Doente internado na cardiologia do CHUC onde fez “Ablação”, cuja nota de alta diz: “Mantém terapêutica de ambulatório. Deve ser referenciado pelo seu Médico de Família para a consulta de Arritmias e deve trazer Ecocardiograma e Holter das 24h”.
4. Doente internado na Neurocirurgia por traumatismo craniano. Teve alta com a seguinte informação “Doente fica com consulta de Neurocirurgia pedida para reavaliação. Deve realizar TAC-CE de controlo antes de vir à consulta. Solicita-se ao Médico Assistente a requisição do exame”.
E poderíamos continuar…
O que é anunciado na comunicação social pelo presidente do CA da ULS (Jornal Médico, JustNews, 14 outubro 2024 ), é que na “ULS de Coimbra, dezenas de profissionais aplicam a integração de cuidados num conjunto de áreas que definimos como prioritárias, como a diabetes, a insuficiência cardíaca, as doenças crónicas respiratórias, a depressão e o acompanhamento da grávida”.
Em que ficamos? A boa vontade teórica é importante, mas todos sabemos que não chega. A gestão única de um CA de ULS, levou a alimentar a centralização em vez de descentralizar.
O “Casamento forçado” da mera integração jurídica, tem levado a que se continue a ter um Hospital Central “muito cristalizado no que existe”, centrado em si, nos seus serviços, longe da comunidade, a manter as entropias conhecidas de longa data, apesar do constante discurso oficial, inovador.
O hospital tem mesmo que sair cada vez mais para fora dos seus edifícios centrais e das suas paredes. Veja-se a incapacidade que o hospital tem em descentralizar serviços para junto da comunidade.
Será que é assim tão difícil, à semelhança do que o sector privado já faz, criar centros de diagnóstico e tratamento integrados, no ambulatório, perto da residência dos doentes para aí realizarem os exames de sangue, fazer um raio x, ECG ou ecografias. Assim como, descentralizar consultas de diversas especialidades hospitalares, como já acontece(u) na psiquiatria e pediatria comunitária desde os anos 90?
A resposta aos doentes crónicos não pode continuar a ser fragmentada, episódica e centrada na doença. Veja-se o exemplo do doente diabético, que infelizmente não tem só diabetes, mas insiste-se em falar só da diabetes. Até se anuncia que a ULS de Coimbra, vai criar uma nova clínica da diabetes em 2025, nos Covões, onde em 1994 foi inaugurado o 1º hospital de dia da Diabetes do país!
Porquê clínica da diabetes, centrada numa doença e não Clínica das Doenças Metabólicas e do Movimento, centrado no doente para realmente dar resposta não só ao diabético, mas sim ao doente diabético? Clínica essa, que deve ter uma equipa multidisciplinar, constituída por médicos internistas, endocrinologistas, ortopedistas, cirurgiões vasculares, oftalmologista, cardiologistas, enfermeiros, nutricionistas, fisioterapeutas entre outros para dar a devida resposta às diversas necessidades destes doentes.
É verdade, ainda “temos um Sistema de Saúde incapaz de se adaptar às necessidades dos doentes” e as ULS não têm sido capazes de inverter esse paradigma.
Para criar valor para os doentes, importa abandonar a ideia de centralismo e perseguir soluções descentralizadas, centradas na gestão integrada do percurso do doente, envolvendo os centros de saúde e os hospitais a trabalharem em rede, tendo por base princípios e valores de Ética de cooperação, coprodução da saúde, interfaces colaborativas em rede, mediação e inteligência colaborativa.

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