Forum Coimbra Baixa (Art.º 7) Um centro urbano de comércio, cultura e vida pública integrado na malha histórica
A Baixa de Coimbra enfrenta, há décadas, um processo de degradação urbana, económica e social que não pode ser explicado apenas por conjunturas recentes. O esvaziamento do comércio tradicional, o abandono de edifícios de elevado valor patrimonial, a perda de residentes e a concentração de respostas sociais de emergência são sintomas de um problema estrutural mais profundo: a deslocação da centralidade urbana para a periferia e a consequente perda de função da Baixa enquanto espaço vivido, produtivo e simbólico da cidade.
Neste contexto, discutir a relocalização do atual Forum Coimbra para a Baixa não é um exercício provocatório nem meramente comercial. Trata-se, antes, de uma reflexão estratégica sobre como devolver centralidade, atividade económica e vida urbana a um território histórico profundamente fragilizado, mas simultaneamente dotado de uma identidade única, construída ao longo de séculos.
O Forum Coimbra Baixa não deve ser entendido como um “shopping” no sentido clássico do termo, fechado sobre si próprio e desligado da cidade. A proposta assenta num conceito de centro urbano do século XXI, híbrido e poroso, onde o consumo de bens e serviços coexiste com cultura, serviços, habitação e espaço público. Um espaço que se abre à cidade e se deixa atravessar por ela, promovendo uma relação contínua entre áreas interiores e espaços exteriores, ruas, largos e pequenas praças, respeitando a escala e a morfologia da malha árabe e medieval da Baixa.
A frente ribeirinha direita da Baixa de Coimbra surge, neste enquadramento, como um território estratégico capaz de acolher um equipamento urbano desta natureza. Trata-se de uma área com forte potencial de articulação entre cidade histórica, rio, espaço público e mobilidade, permitindo soluções arquitetónicas contemporâneas que não colidam com a leitura patrimonial do conjunto urbano. A opção por integrar uma parte significativa do programa em subsolo contribui para reduzir o impacto volumétrico e preservar a imagem da cidade histórica.
Esta solução abre igualmente a possibilidade de integrar as camadas arqueológicas e a memória construída como parte ativa da narrativa arquitetónica e cultural do projeto. A arqueologia deixa, assim, de ser um mero constrangimento técnico e passa a assumir-se como elemento identitário, pedagógico e simbólico, valorizando o passado como fundamento do futuro.
O Forum Coimbra Baixa deve ainda responder a uma das fragilidades estruturais da Baixa: a escassez de estacionamento. Um sistema de utilização mista, com estacionamento diurno para visitantes e noturno para residentes, contribui para a reabilitação habitacional, melhora a qualidade de vida da população residente e reduz a pressão sobre o espaço público, sem comprometer a mobilidade pedonal e a vivência urbana.
Importa, contudo, sublinhar que nenhum projeto desta natureza pode ser pensado apenas como uma operação urbanística ou económica. O Forum Coimbra Baixa só fará sentido se integrado num programa mais amplo de reabilitação social, atento à realidade sociológica da Baixa. Este território concentra hoje uma população envelhecida, pessoas em situação de vulnerabilidade social, dependências e pobreza estrutural, acompanhadas por inúmeras instituições e IPSS cujo trabalho, apesar de essencial, funciona muitas vezes como paliativo num contexto de profunda depressão económica.
A reabilitação urbana deve caminhar lado a lado com a reabilitação social, criando oportunidades de formação, emprego e integração, desde logo através das próprias fases de intervenção: levantamento arqueológico, construção, manutenção, serviços, cultura e comércio. Trata-se de garantir que este processo gera sentido de pertença, e não exclusão; inclusão, e não substituição social.
É fundamental afirmá-lo com clareza: este plano não pode transformar-se em mais uma ferramenta de “higienização” urbana ou numa operação especulativa de valorização do solo à custa de investimento público e de legislação feita à medida, como se tem visto noutras cidades. A Baixa de Coimbra não precisa de ser esvaziada para ser valorizada; precisa de ser cuidada enquanto território vivo, diverso e socialmente complexo.
O Forum Coimbra Baixa é, assim, uma proposta de cidade. Um regresso ao significado original de fórum enquanto espaço cívico de encontro, troca e vida pública. Um projeto que reconhece o passado, responde às fragilidades do presente e aposta num futuro em que a Baixa volte a ser, de forma plena, o centro económico, social, cultural e humano de Coimbra.
