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Exportar mais é bom. Exportar melhor é o caminho.

18 de novembro de 2025 às 12 h08

Os dados mais recentes sobre o comportamento das exportações portuguesas revelam uma recuperação em Setembro, após a quebra abrupta de Agosto. No entanto, como sublinhou Juliana Simões no podcast “Economia dia-a-dia”, esta melhoria tem um pilar muito específico: o crescimento das chamadas “exportações por encomenda”. Trata-se de produções feitas em Portugal, mas cuja concepção, propriedade intelectual e valor estratégico pertencem a empresas estrangeiras. Somos, na prática, executores altamente qualificados de ideias que não são nossas.

É verdade que estes contractos representam emprego, actividade económica e presença nos mercados internacionais. Mas representam também uma vulnerabilidade crescente. Quando aquilo que diferencia Portugal é sobretudo o rácio qualidade/preço da mão-de-obra, estamos sempre a um pequeno desvio de custos ou a uma mudança de estratégia global de perdermos o lugar na cadeia de valor. A dependência excessiva deste modelo mantém-nos na periferia da inovação: produzimos bem, mas criamos pouco; entregamos competência, mas raramente entregamos originalidade.

A reflexão sobre o futuro da economia portuguesa torna-se ainda mais urgente quando observamos a velocidade com que a Inteligência Artificial (IA) se instalou no quotidiano mundial. Nenhuma tecnologia na história chegou tão depressa ao marco de mil milhões de utilizadores. A IA não é apenas uma ferramenta. É um multiplicador de produtividade, de criatividade e de competitividade. Ignorá-la seria repetir erros antigos, nos quais deixámos que outros definissem o rumo enquanto nos limitávamos a acompanhar.

Se queremos sair (ou não agravar mais) da condição de subcontratados da Europa mais desenvolvida, temos de apostar claramente na inovação própria — científica, tecnológica, empresarial. E essa aposta passa, inevitavelmente, por colocar a IA no centro das prioridades estratégicas: qualificação dos trabalhadores, modernização dos processos industriais, digitalização das pequenas e médias empresas, integração de sistemas inteligentes na gestão, no desenho de produto, na logística e na tomada de decisão.

Não se trata de substituir pessoas por algoritmos, mas de dar às pessoas instrumentos que ampliem o seu potencial. Países pequenos e com recursos limitados não podem competir apenas com escala ou mão-de-obra barata. Têm de competir com inteligência, com diferenciação, com capacidade de fazer mais com menos. A IA será inevitavelmente uma ferramenta que melhor servirá esta ambição.

Portugal tem talento, universidades de elevada qualidade, centros de investigação reconhecidos e empresas capazes de inovar. Falta transformar estas ilhas de excelência num continente económico coerente. Falta criar um ecossistema onde a inovação não seja episódica, mas estrutural; onde o valor acrescentado não venha apenas de executar, mas de inventar.

Exportar mais continuará a ser importante. Mas exportar melhor — produtos próprios, tecnologia própria, soluções próprias — é o único caminho para uma economia menos frágil e verdadeiramente preparada para o futuro que, com a IA, já chegou. E é precisamente aqui que não podemos ceder ao receio de que a Inteligência Artificial seja um ladrão de empregos. A história mostra que não é a tecnologia que destrói trabalho, mas sim a incapacidade de a integrar. Se Portugal rejeitar a IA enquanto outros países a adoptam como instrumento capacitador, produtivo e criativo, então sim, ficaremos irremediavelmente para trás. E, nesse cenário, a perda de empregos será não apenas real, mas profunda. Abraçar a IA não é uma ameaça; é antes a única forma de proteger e elevar o valor do trabalho português num mundo que já nos mostrou por diversas vezes que não espera por nós.

Ainda a propósito do tema, a Microsoft anunciou um investimento de mais de 10 mil milhões de dólares em Sines. Isto para “construção de plataformas de última geração” para suportar cargas de trabalho avançadas de IA. Que alguma dessa carga seja de empresas Portuguesas.

*Por decisão pessoal, o autor do texto não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico.

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