Elogio de Carvalho da Silva
Carvalho da Silva esteve dia sete de maio numa conversa na Antena 1 onde demonstrava uma sabedoria invulgar na legislação laboral. É um homem acima da querela política, navegando em águas suas, com leme seu, com mãos de calos cultos, onde o discurso não se inflama e o dedo não se ergue. Os outros intervenientes são o mainstream, o lugar-comum, o que flutua em todas as temáticas que hoje nos preenchem os canais e redes sociais.
As pessoas deixam de analisar os números, e atiram combustíveis, inflamam a conversa e interrompem-se a despropósito e até a propósito. O tema da legislação laboral implica uma pergunta: porque vamos mudar a lei? Os dados que sustentam a ideia são a baixa produtividade (somos 28% menos que na europa) a baixa de salários (recebemos 35% menos que a europa) o desemprego jovem (temos três vezes menos emprego jovem que a europa) a inteligência artificial, a robótica e o processo de construção de energia autónoma estão no epicentro das mudanças. Vamos mudar a lei para produzir mais, construir patentes, adaptarmos à revolução tecnológica, ser sustentáveis na energia, resolver as questões das relações contratuais entre empresários e empregados.
– Só que não!
Os temas de robótica, Inteligência artificial e energia, não estão contemplados em qualquer linha do projecto. Vamos então discutir o modo como financiamos o empreendedorismo, como optamos por deixar as apostas não produtivas (turismo, construção civil, restauração, comércio a retalho, etc) e passamos a coisas incontornáveis como tecnologia, indústria de metais, soluções de mobilidade, construção de energia, produção de alimentos saudáveis.
– Só que não!
Vamos, portanto, à minudência. Como aceitar mais facilidade nos despedimentos, mais dificuldade no reingresso no trabalho após decisão jurídica, como facilitar o outsourcing. Isto sim. Já a aposta em premiar o mérito, em valorizar o compromisso, beneficiar os que respondem de modo constante à adaptação e diversidade não vem por lá escrito. Construção de escolas de profissões insubstituíveis pelas revoluções tecnológicas do amanhã também lá não surge. Hoje faltam ladrilhadores, estofadores, estucadores, electricistas, mecânicos, sapateiros, alfaiates, carpinteiros que para já são profissões intocáveis pela robótica e a Inteligência artificial.
Esta manhã ouvi Carvalho da Silva pensar sobre tudo isto, elaborar sobre os problemas e sugerir racionalidade. Os outros eram mais do mesmo, preocupados com a defesa da sua incapacidade de autocrítica e avaliação. Obrigado, Camarada! Sei que sabes que não sou, mas a inteligência e a sabedoria sem rancor, sem fanatismo, fascina-me!

