E agora, seguimos ou pensamos?
Em Portugal, ao contrário do que o ditado faz crer, há uma obsessão com a culpa. Mais do que perceber o que aconteceu e porque aconteceu, o importante é dizer «O culpado foi Fulano». Nos acidentes de comboio invariavelmente essa culpa recaía na Sr.a Guarda da passagem-de-nível.
E mesmo que previsto e avisados, de que um dia isto vai correr mal, atribui-se então a culpa ao vento, à chuva, ao sol.
Noites de insónia levaram-me, há uns anos, ao conhecimento das investigações de acidentes e incidentes com aeronaves. O objectivo dessas investigações é saber o que aconteceu, o como e o porquê. Tudo o que concorreu para tal, mesmo que haja falha humana perceber porque houve essa falha. Sempre no sentido de adoptar formas de evitar acidentes idênticos. Destas investigações saem recomendações sobre alterações de procedimentos, materiais, treino, etc. Por alguma razão o transporte aéreo é o campeão da segurança.
Este comboio de eventos extremos, ele próprio um extremo, não caíu do céu (pelo menos em sentido figurado). O conhecimento que vamos estar cada vez mais expostos a eventos desta natureza é conhecido. Há décadas que somos alertados e que sabemos como nos preparar para menos sofrer. Não nos prepararmos é opção, não é fatalidade.
E quanto às cheias? Que sabemos que vão acontecer com maior magnitude e mais frequentemente. Não seria de adoptar novos procedimentos? Actualizar a cota máxima de «cruzeiro» da Aguieira de forma a lhe aumentar a capacidade de encaixe?
E vamos mesmo reconstruir tal e qual o que foi destruído, sem necessidade sequer de pareceres ou licenças?!… Vamos reconstruir onde a água destruiu?!… Um dos identificadores de inteligência é não repetir os mesmos erros.
Uma das críticas que ouvia frequentemente ao Arq. Pais. Ribeiro Telles era de que dizia sempre a mesma coisa. Pois, desde 1967 que alertava sempre para os mesmos erros recorrentes.
Uma cheia lenta, controlada não mata, nem causa destruição de património, se não houver casas e as infra-estruturas estiverem preparadas. A A1 não teria abatido se aquele troço fosse em viaduto em colunata como o é pouco mais a norte, junto à mata da Geria.
Mais áreas de alagamento são necessárias. Mais parques, jardins, áreas ribeirinhas sem construção, zonas húmidas.
Como a realidade é mais imaginativa que a ficção, ainda a tempestade Kristin se fazia sentir e do distrito de Leiria advinhava-se a catástrofe, no parlamento discutia-se o desmantelamento da Lei de Bases do Clima.
A iniciativa terá de partir da política local, como demonstrado nestas últimas semanas. Que o eixo Coimbra, Montemor-o-Velho e Soure, criado na resposta à crise se estenda à Figueira da Foz, para planear a região e estarmos mais preparados para a próxima calamidade. Pois ela aí virá.

