Portugal, um engano!
O futebol jamais foi uma ciência exata. É uma arte. E toda arte definha quando o tacticismo pretende substituir a inspiração e a imaginação. Multiplicam-se esquemas, mapas de calor e algoritmos; escasseiam o drible inesperado, o passe impossível e a alegria contagiante de quem joga porque ama a bola.
No nosso banco e ao comando está um zero à esquerda. Foi assim na Bélgica – onde triturou uma das melhores seleções de sempre – e repete a ementa em Portugal. Consegue transformar os melhores talentos do mundo em atletas sofríveis a quem falta brilho, alegria e inspiração. Só não vê quem não quer!
Os grandes cronistas compreenderam aquilo que muitos treinadores esqueceram: o futebol não nasceu para evitar o erro, mas para perseguir o encantamento. O golo não é apenas uma estatística; é um poema escrito em movimento. Uma assistência vale tanto quanto a finalização. Um desarme elegante pode ser tão belo quanto um remate ao ângulo. Mas nada supera uma equipa que ataca unida, repartindo o protagonismo como uma orquestra em que ninguém procura tocar mais alto do que os outros.
O futebol mais belo não é o que controla todos os espaços, mas o que abre horizontes. Não é o que paralisa o adversário, mas o que liberta o talento. A obsessão pela segurança transformou demasiados jogos em exercícios de cálculo, quando deveriam ser celebrações de coragem.
Cada partida nossa tem sido um arrepio, uma tristeza desconcertante. Do banco só desnorte.
Os campeões ficam nos livros. As equipas que jogam com alegria permanecem na memória. Porque o povo nunca se apaixonou por linhas de cinco, blocos médios ou posse estéril. Apaixona-se por quem ousa, por quem inventa, por quem compreende que a bola foi feita para circular entre companheiros, nunca para alimentar vaidades. Enquanto houver uma criança a sonhar com um drible e não com um esquema tático, continuará viva a esperança de que a poesia volte a vencer o medo.
Até aqui fomos um ledo engano! Ainda há tempo para mudar…
