O que a bola nos ensina
É inevitável por estes dias falarmos de futebol, mas não necessariamente só de futebol. Miguel Almirón é um jogador paraguaio que já ganhou um lugar na história dos Campeonatos do Mundo: foi o primeiro atleta expulso por tapar a boca ao dirigir-se a um adversário dentro das quatro linhas. Há uma regra nova: não são admitidas mais máscaras de ódio!
Esta medida (conhecida também por “Lei Vini Júnior “, por referência ao craque brasileiro) foi – e muito bem – agora adotada pela FIFA para fazer face a episódios sucessivos de discriminação, racismo, e ofensas verbais de todo o tipo dentro de campo, que por conta da boca tapada não se conseguiam identificar e menos ainda provar. O brasileiro Vini Jr. foi, alegadamente, vítima dessa prática por diversas vezes.
Acabar com esta “máscara” é um sinal civilizacional: a sociedade começa finalmente a afirmar que a suposta liberdade de expressão termina onde começa a agressão à dignidade humana, também quando dentro de um campo de futebol.
Agora a pergunta que importa fazer: se até num campo de bola, quem insulta, discrimina ou humilha deve assumir as consequências dos seus atos, por que haveria de ser diferente no universo digital? O anonimato – a tal “máscara do ódio” por via de perfis falsos – transformou-se num expediente conveniente para milhões de ataques, difamações e campanhas de ódio díários que raramente seriam repetidos cara a cara.
A abolição do anonimato, através de identidades reais e verificadas, não elimina a liberdade; pelo contrário, responsabiliza quem a exerce. Tal como o futebol descobriu que a mão na boca era a “máscara” que protegia o agressor, também a democracia digital deve compreender que a impunidade do anonimato protege o ódio, dilacera as democracias e alimenta os extremismos.
A tendência legislativa predominante falhou neste domínio: o utilizador pode apresentar-se no ambiente digital, publicamente, com um pseudónimo, desde que uma autoridade judicial possa identificá-lo em caso de crime ou abuso. Se todas as vítimas se queixassem não haveria tribunais suficientes.É hora de mudar as regras e até a atávica FIFA percebeu isso.
