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A queda dos ídolos

20 de junho de 2026 às 10 h45

Podemos estar a assistir ao momento da queda de um ídolo. Pois o cair é o destino de todos os ídolos.

Ronaldo é o epítome dos ídolos das sociedades de consumo neoliberais. Encarna a história transcendente de um self made man, de origens humildes, que por qualidades individuais de exceção se transforma em estrela de adoração planetária.

O ídolo neoliberal, individualista até à medula, tem analogias com os solitários heróis da Grécia Clássica. O que os distingue dos mortais não é a bondade, a atenção, o cuidado, a virtude sacrificial.

É o tocar arrogante do céu dos deuses. É o faustoso viver a vida dos caprichosos deuses. É o ser, em suma, uma verdadeira divindade pagã.

Os atributos da divindade neoliberal são os atributos de qualquer divindade em todos os tempos e lugares: o poder e a força.

É a força do poder que faz multidões venerarem Ronaldo Deus.

Poder afirmado e movido pela exibição do dinheiro e pelo fascínio da fama.

Dinheiro e fama que, na verdade, constituem o evangelho único das sociedades de consumo.

Sucede que os crentes do consumo são, por natureza, fiéis volúveis, que buscam, sem cessar, novos ídolos, carregados de ainda maior poder e fama, e que substituam, em movimento perpétuo, os deuses ora cadentes.

Nas sociedade de consumo, em que as coisas e as pessoas são obsolescentes por natureza, os ídolos, eles próprios, são objeto dessa obsolescência programada, ameaçados, em permanência, pela aparição nos mercados da fama de novíssimos e efémeros deuses.

O problema de Ronaldo é o de não ter ainda percebido estar à beira da expulsão do mercado dos deuses.

E que a queda é o destino de todos os deuses.

Pois as multidões aduladoras são quase sempre implacáveis e sempre sem misericórdia.

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