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As crianças pelo mundo digital – sozinhas ou acompanhadas?

09 de junho de 2026 às 10 h15

O mundo digital trouxe novas e crescentes ameaças à segurança das nossas crianças. A participação digital não é, sequer, questionável, e uma das finalidades das políticas públicas há-de ser a equidade digital, prevenindo as dificuldades de acesso e/ou a exclusão digital.

 

A melhor intervenção será, sempre, aquela que melhor conhecer a realidade que dela vai ser objeto. A este propósito, é interessante analisar um inquérito feito, em finais de 2025, pela Euroconsumers, um grupo de associações de defesa dos consumidores europeias, e de que faz parte a Deco, em que foram inquiridas 3,351 crianças, entre os 12 e os 17 anos, da Bélgica, Itália, Espanha, Portugal e Polónia.

 

Uma primeira curiosidade prende-se com o facto de muitas das crianças inquiridas terem uma vida offline preenchida, com várias atividades extracurriculares, desde desporto, música e outras atividades artísticas, cursos de línguas e escutismo. Paralelamente, e de forma não surpreendente, estão estritamente ligadas ao mundo digital. Das inquiridas, 96% usava um smartphone com ligação à internet, sendo que a maior parte delas tinha ainda acesso à internet através de um outro aparelho: computador (67%), tablet (34%) ou consola de jogos (27%).

 

O número de horas despendidas online é muito semelhante entre os vários países: por dia, as crianças entre os 12 e os 14 passam 3h20m e as crianças entre os 15 e os 17 passam 3h30m online, em Portugal. Navegar na internet, fazer chamadas através de uma aplicação, o streaming de música ou de filmes (Youtube, Netflix, Disney+, Spotify), jogar online, são atividades quotidianas das nossas crianças. As compras online e a criação de conteúdos (blogs ou vídeos de TikTok) não são predominantes, mas constituem atividades comuns. Outra conclusão interessante do inquérito da Euroconsumers foi que o número de atividades online não se repercute negativamente no comportamento offline das crianças. Pelo contrário, as crianças mais ativas offline são também as mais ativas online.

 

Quanto às redes sociais, situação preocupante e para a qual está a ser discutida no Parlamento uma restrição de acesso a menores de 16 anos, quase todos os inquiridos responderam ter utilizado entre uma a quatro nos dozes meses precedentes ao inquérito, sendo as mais populares WhatsApp (93%), Instagram (82%), TikTok (69%), Facebook (60%) e Snapchat (42%). Como padrão, observou-se que os inquiridos começaram a usá-las antes dos 13 anos, apesar dos limites de idade estabelecidos, demonstrando que os sistemas de verificação da idade não estão a resultar e que os menores conseguem contornar as limitações impostas.

 

Os jogos são comuns entre os inquiridos, com uma taxa de rutilização de 85%. Para os meninos entre os 12 e os 16 anos, a taxa é de 96%, para as meninas é de 77%. Seguir influenciadores digitais é comum em Portugal com 87% dos jovens a fazê-lo, embora com interesses diferentes para os meninos, que preferem conteúdos relacionados com jogos e desporto, e para as meninas, que preferem conteúdos relacionados com moda e lifestyle, comida e bem-estar. Entre os 12 e os 14 anos, as crianças estão mais interessadas em dicas relacionadas com autoestima e positividade corporal.

 

Os riscos são, todavia. reais. Das crianças inquiridas, 29% relataram já terem sido abordadas por estranhos online (não necessariamente com intenções negativas), 16% compraram inadvertidamente algum produto, 14% foram sujeitas a discurso de ódio, 11% receberam conteúdos não solicitados, de cariz violento ou sexual, 8% foram vítimas de assédio ou de stalking online, 7% foram ameaçadas com a partilha de fotografias ou vídeos privados e 6% aceitaram um desafio online com consequências no mundo material (não digital).

 

O que o inquérito da Euroconsumers nos confirma é o claro padrão das vantagens (fonte de conhecimento e de criatividade, fator de conexão social) e desvantagens (ameaças várias) do mundo digital, comum às várias idades.

 

É certo que cada criança é uma criança, que cada família é uma família, mas crianças seguras requerem, em primeiro lugar, pais vigilantes. Mais de 83% das crianças disseram ser sujeitas a controlo parental sobre as suas atividades online: os pais monitorizam a sua participação nas redes sociais, quanto ao perfil e às publicações, exigem permissão antes de comprarem ou instalarem aplicações, estabelecem tempo limite de ecrã e proíbem o acesso a determinadas aplicações ou plataformas. O papel dos educadores é, pois, fundamental para crianças seguras e, no futuro, consumidores confiantes.

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