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Se isto é um filme

26 de maio de 2026 às 19 h00

A Árvore da Vida estreou em Portugal há 15 anos, a 26 de maio de 2011. A obra central de Terrence Malick continua a fascinar o público depois de ter dividido a crítica.

 

A Árvore da Vida é um daqueles filmes que não tem explicação: sente-se. As palavras ficam pequenas a seu lado, pois não é por elas que o conseguimos ler, nem através delas que o conseguimos expressar.

O filme é falado em inglês, mas na verdade não tem língua: é universal. É como se fosse possível, de alguma forma meramente espiritual, entrarmos na árvore que deu origem a todos nós, bebendo-lhe a seiva que a percorre para nos deixar existir, comendo da raiz onde está inscrito como tudo começou. A fotografia, captada pelo cinematógrafo Emmanuel Lubezki, poderia bem representar o olhar de uma mosca que vagueia num voo lento e sincronizado com a perfeição, que tem acesso a tudo o que não queríamos ter perdido.

A Árvore da Vida é um drama familiar, mas foge à tradição clássica de se contar uma história, neste caso a do luto de um filho: o realizador, Terrence Malick, vai abandonando a narrativa e opta por intercalá-la com imagens de planetas e estrelas e poeira cósmica, de vulcões em erupção efusiva, da evolução das espécies no pano de fundo do mar, de dinossauros em época de caça, dando por vezes a ideia de que estamos a assistir a um documentário especulativo da Discovery Channel. Quem nos garante que tal não está a acontecer é a banda sonora, saída diretamente de coros de igreja para nos presentear com peças tão magistrais quanto a Funeral Canticle de John Tavener.

 

“A Árvore da Vida é um daqueles filmes que não tem explicação: sente-se”

Como em todas as obras mais tardias de Malick, mas talvez em especial nesta, o diálogo parece desprendido das personagens e até de significado, mas fica-nos a ressoar dias, semanas ou até meses na mente. Por algumas falas serem desconexas e introspectivas não quer dizer que não tenham sido sentidas, e que não nos possam iluminar.

Terrence Malick alcançou um posto onde pode fazer o que quer, depois de nos ter brindado com clássicos como Badlands, Dias do Paraíso ou A Barreira Invisível. Se então era contemplativo (o autor estudou filosofia na Universidade de Oxford), hoje em dia entrega obras que não precisam sequer de guião para resultarem. Mesmo sabendo que a eternidade mora lá à frente, como uma miragem, julgo que o cineasta acredita que também se a pode jogar para trás; e por isso usa o passado longínquo como motor para nos fazer perceber o nosso lugar no tempo, o que veio antes de nós, o quão pequenos somos no meio disto tudo.

Em A Árvore da Vida a criação da vida é desmontada pela criação de cada vida. A temática da educação está altamente patente, sobretudo na forma de transmitir os nossos valores a quem vem a seguir a nós. Através de mensagens como “Serás crescido antes de aquela árvore ser alta”, fica evidente que reina a ideia de que toda a criatura cresce, mas ao seu ritmo. Cada ser é único.

 

“Cometi um grande erro na primeira vez que tentei ver A Árvore da Vida (uma visualização que abandonei aos primeiros 20 minutos): julguei que ia ver um filme”

 

Quando mais tarde o terminei, tinha quase a certeza de que se debruçava mesmo sobre educação. Hoje não faço ideia sobre o que é: se sobre família, luto, religião, solidão, valores, ou sonhos não cumpridos e portanto esquecidos. Talvez seja sobre tudo isso. Talvez não seja sobre nada.

Hoje sei, no entanto, que isto não é um filme; é a vida toda lá dentro. Apenas o tomamos como filme porque não temos outra maneira de lhe chamar, e porque ele não tem outra maneira de chegar até nós.

 

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