Do queijo à queijada
Por estes meses primaveris, pelo menos desde a Antiguidade Clássica, das novidades da terra era particularmente valorizado o queijo. Simbolizava a fertilidade da terra e a bem-sucedida multiplicação dos rebanhos.
Na Grécia Antiga, em algumas práticas religiosas relacionadas com divindades associadas a ciclos de fertilidade eram oferecidos bolos que incluíam queijo nas massas. Uma prática continuada pela civilização romana que chamava estes bolos sagrados de “libum”.
No século II a.C. um autor romano chamado Catão, o Velho, dá a conhecer uma fórmula culinária comple45xa destes bolos na obra “De Agri Cultura”. Chamado de “placenta” (do grego “plakous”, que significa “bolo”), este preparado compunha-se de camadas de finas folhas de massa intercaladas com uma mistura de queijo e mel, formando um bolo que ia cozer ao forno e, antes de ser servido, era regado com mel.
Uma prática comum nas culturas mediterrânicas, a de se associar os queijos ao mel. Ao queijo, nomeadamente ao fresco ou pouco curado, eram associados “humores frios e húmidos” cujo consumo excessivo provocava a destabilização dos “humores” que circulavam dentro do corpo humano. Era, pois, necessário contrabalançar este excesso com a associação do queijo a ingredientes de qualidade opostas, “quentes e secas”, sendo o mel um dos alimentos com maior força destes humores.
Já no período medieval, surgiria na culinária muçulmana, particularmente nos hábitos alimentares das comunidades muçulmanas que se instalam na Península Ibérica, o Al-Andaluz, alguns preparados onde a associação do queijo ao doce se manteria, fazendo-se agora também uso de um outro edulcorante mais requintado, o açúcar, e as especiarias.
Identificam-se doces denominados por “almojávenas”, massas recheadas de polmes de queijo e ovos que podiam ser fritas ou cozidas em forno, denominação que deriva da palavra árabe para queijo, “jubn”.
Outros doces à base de queijo evidenciam, por outro lado, origens distintas e talvez mais remotas: a “qaiyata dos sete ventres” é referida no século XIII como um doce que se fazia especialmente das regiões mais ocidentais da Península Ibérica (atuais regiões da Andaluzia, Alentejo e Algarve) e apresentava a forma de um bolo de camadas de massa fina intercaladas com um mistura de queijo fresco e pão ralado que, após cozer em forno, era regado com mel, calda de rosas ou polvilhada de açúcar e canela.
Se, culinariamente, apresenta muitas semelhanças com a “placenta” romana, a origem etimológica da palavra reforça esta ligação multisecular, uma vez que a palavra “qaiyata” surgiria da arabização da palavra latina “caseus”, queijo.
Os séculos passariam e, com as transmissões de receitas e práticas entre indivíduos e comunidades, a fórmula destes preparados modifica-se. Com desenvolvimento da arte doceira a partir do século XVI, os polmes seriam acrescentados de ovos e açúcar, resultando no que atualmente chamamos de queijadas e das quais, na cidade e suas redondezas, não faltam variedades para experimentar e saborear estes milénios de história.
