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Dois anos de ULS – Exemplo de Coimbra: pouco mudou!

08 de abril de 2026 às 09 h30

A reorganização integral do Serviço Nacional de Saúde (SNS) em 39 Unidades Locais de Saúde (ULS), operacionalizada em 2024, entrou em 2025 2026 numa fase de consolidação. O Estudo sobre as ULS, publicado em março de 2026 pela Entidade Reguladora da Saúde (ERS), oferece a base analítica para avaliar o que melhorou e quais os constrangimentos persistentes, permitindo também olhar com detalhe para a ULS de Coimbra. Segundo a ERS, o que mudou — ou não — com o modelo ULS?

1) Integração e coordenação de cuidados: a ERS identifica, em algumas ULS, ganhos claros na articulação entre os cuidados de saúde primários (CSP) e os cuidados hospitalares, sobretudo na gestão dos percursos clínicos e na continuidade assistencial.
Em Coimbra, pelo menos em teoria — plasmada nos planos de ação — estes ganhos traduziram-se numa aposta em percursos clínicos integrados e em inovação organizacional (por exemplo, os programas INTEGRAR+), com projetos premiados nas áreas da obesidade e do diagnóstico precoce oncológico. Tudo isto reforça, no papel, a lógica de cuidados centrados no utente e de transversalidade entre CSP e hospital.
Contudo, na prática, nada disto aconteceu. Pelo contrário, mantém-se um modelo assistencial centrado nas especialidades hospitalares, frequentemente isoladas e sem comunicação efetiva entre si. Exemplos são abundantes no quotidiano clínico: um doente residente em Coimbra é observado numa consulta do Centro de Referência de Tratamento e Investigação de Cirurgia da Obesidade no CHUC e regressa com uma carta para o seu médico de família, solicitando exames complementares de diagnóstico, alguns dos quais já constam do processo clínico eletrónico, para os “trazer” numa próxima consulta; outro doente, também residente em Coimbra, seguido em consulta de Cirurgia por suspeita de neoplasia do cólon, é orientado para ir ao médico de família em Celas para lhe ser prescrita uma TAC abdominal, a realizar no setor privado ou em regime de convenção; um doente devidamente referenciado para o Serviço de Urgência do CHUC recebe indicação para regressar ao médico de família apenas para emissão de um certificado de incapacidade temporária (“baixa” médica).

 

Mais ainda, verificou-se um retrocesso na integração dos cuidados à grávida. Desde 2024, a grande maioria das ecografias do terceiro trimestre deixou de ser realizada nas maternidades, sendo a grávida instruída a regressar ao seu médico de família para solicitar a requisição e realizar o exame no setor privado ou em convenção.

 

Imagine-se uma grávida de Oliveira do Hospital ou de Arganil que se desloca a Coimbra para uma consulta de seguimento da gravidez, mas tem depois de regressar ao seu centro de saúde para pedir a requisição, voltando novamente a Coimbra para realizar a ecografia de rotina do terceiro trimestre.
É isto uma ULS que integra e coordena cuidados centrados nas necessidades das pessoas?

2) Escala, capacidade instalada e eficiência técnica: a ULS de Coimbra, a maior do país, agrega elevada diferenciação assistencial, liderança científica e uma forte componente de ensino e investigação, criando, pelo menos teoricamente, condições excecionais para sinergias raramente possíveis em modelos fragmentados.
Mais uma vez, a prática fica aquém da teoria. A rede de proximidade para a realização de espirometrias limita-se a dois centros de saúde da cidade de Coimbra, deixando todos os restantes centros de saúde da ULS desprovidos deste exame, obrigando os utentes a deslocações de dezenas de quilómetros.
No que respeita às análises clínicas, nada mudou. A ULS não conseguiu implementar a descentralização da colheita de produtos biológicos, que permitisse a sua análise no laboratório central, desperdiçando a real escala da ULS e comprometendo a eficiência técnica que o modelo prometia.

3) Melhoria do acesso ao hospital: um dos sinais de alerta mais robustos do relatório da ERS prende-se com o incumprimento dos Tempos Máximos de Resposta Garantidos (TMRG), com amplitudes muito relevantes: cirurgias programadas, incumprimentos entre 1,7% e 42,5%; primeiras consultas hospitalares, entre 18,3% e 70,5%.
Na ULS de Coimbra, no primeiro semestre de 2025, 65,9% das primeiras consultas hospitalares ocorreram para além do TMRG, um dos piores desempenhos a nível nacional, a par da ULS da Região de Leiria.

4) Gestão dos recursos humanos: a ULS de Coimbra continua sem uma estratégia coerente de atração e fixação de recursos humanos. A ERS sublinha dificuldades na gestão integrada das carreiras, na retenção de médicos e enfermeiros, no envelhecimento dos quadros e na dependência crescente de soluções transitórias.
Persistem igualmente problemas graves como: a incapacidade de resolver os processos do SIADAP médico, congelado há vários biénios, bloqueando a progressão na carreira; a manutenção de cerca de 8% da população (aproximadamente 28 mil utentes) sem médico e enfermeiro de família; práticas de gestão que replicam erros do passado, nomeadamente a colocação de dirigentes em regime de substituição em vez do cumprimento do recrutamento por concurso público; o desrespeito pelo enquadramento da carreira médica, designando médicos para funções de direção ou coordenação sem que sejam titulares da categoria de assistente graduado sénior, como a lei exige.
Dois anos depois, é evidente que o modelo organizacional da ULS, por si só, não resolveu os problemas estruturais de gestão do SNS. Persistem constrangimentos no acesso, nos tempos de espera, nos recursos humanos, nas carreiras e no financiamento.
Mais surpreendente ainda, mantêm-se os problemas de não integração efetiva de cuidados entre os centros de saúde e os hospitais da própria ULS de Coimbra.

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