Cultura do cuidado: lava-mãos ou lava-pés?
Pilatos desempenha um papel decisivo em todo o relato da Paixão de Cristo. É a ele que, como principal responsável do Império Romano em Jerusalém, com responsabilidades administrativas, militares e de administração da justiça, é levado este Jesus, de Nazaré, que tanto incomodava as elites religiosas judaicas, pela denúncia sistemática do seu comportamento hipócrita. Pilatos até leva inicialmente a cabo o seu papel com diligência e profissionalismo, realizando um interrogatório minucioso em que conclui ser Jesus inofensivo e não haver motivo para a condenação à morte. Propõe-se assim soltá-l’O.
Contudo, perante a insistência dos acusadores e para evitar que estes instigassem uma revolta na população, acaba por ceder. Todos os evangelistas concordam que Pilatos foi vencido, mas não convencido, acrescentando Mateus: “Pilatos, ao ver que nada conseguia e que, pelo contrário, o alvoroço se tornava cada vez maior, mandou vir água e lavou as mãos diante da multidão, dizendo: «Estou inocente do sangue deste homem! Isso é lá convosco».” Este lava-mãos de quem tem responsabilidade de agir e prefere nada fazer, de forma a evitar aborrecimentos, contrasta fortemente com o episódio do lava-pés ocorrido na Última Ceia, conforme relatado pelo evangelista João: aqui Jesus assume deliberadamente uma posição de serviço considerado indigno (lavar os pés dos outros), como forma de exemplo.
A reportagem “Escolas recebem influenciadores que fazem da sexualização das crianças um negócio”, publicada no passado dia 1 de Março pelo jornal Público, revela de forma eloquente a perene atualidade deste relato, na forma como aqueles que têm responsabilidades por vezes “lavam daí as suas mãos”. Tais “influenciadores” terão sido contratados por associações e listas de estudantes para eventos associados às campanhas eleitorais, em pelo menos 80 escolas do ensino básico e secundário (com crianças e jovens dos 10 aos 18 anos).
A discussão pública que se iniciou então não poupou, nem devia poupar, nenhum dos adultos envolvidos, desde o fraco acompanhamento dos pais à questão do papel dos partidos políticos e das juventudes partidárias no financiamento deste tipo de atividades. Com um destacado e decisivo papel do comportamento negligente das direções escolares que assinaram de cruz a autorização de entrada de tais “individualidades” nas escolas.
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Ficou evidente a ausência de uma cultura de cuidado. Cuidado dos pais na educação dos seus filhos, incluindo o uso seguro e adequado da internet e redes sociais; cuidado dos partidos políticos e juventudes partidárias no patrocínio de atividades de listas e associações estudantis de menores; cuidado dos professores e funcionários sobre o que se passa em contexto escolar; cuidado das direções escolares sobre as autorizações que concedem. Urge um reconhecimento e reflexão séria, que muitos querem evitar, sobre as falhas agora reveladas.
Tal como no relato da Paixão, há muitos responsáveis por estes tristes acontecimentos. Mas isso não diminui, antes aumenta, a responsabilidade de Pilatos, último responsável pela autorização derradeira. Um diretor escolar, identificado na reportagem do Público, perguntava displicentemente: “Mas tenho de pesquisar sobre quem vem à escola?” É claro que tem.
