Deskilling ou “o rei vai nu”?
Reskilling e upskilling têm sido referidas amiúde como fundamentais no contexto de aprendizagem ao longo da vida e para que força de trabalho se mantenha relevante e competitiva, sendo esse um esforço conjunto entre empresas e pessoas. Algumas empresas adotam já o modelo de “coach de carreira” ou “Career Counseling”, “Career Services” para que exista correspondência entre o que a empresa necessita e as expectativas da pessoa.
Algumas universidades têm também esse serviço (Nova SBE e ISEG, por exemplo) como parte da preparação dos estudantes para o mercado de trabalho, o que significa um excelente serviço prestado nesse fit entre mercado e preparação. Todavia, o que mais recentemente me preocupa é o “deskilling” ou “desqualificação ou perda de competências” e as consequências que isso poderá apresentar para quem se encontra agora a entrar no mercado de trabalho.
A forma como, tradicionalmente, certificamos o que os estudantes aprenderam é incompatível com as metodologias/ferramentas/tecnologias que hoje em dia os estudantes utilizam e que lhes dão a ilusão de saber algo: “o trabalho/exame/tarefa está concluído/a logo aprendi algo”, o que está distante de ser verdade. Não pretendo que a avaliação seja central – mas sim a aprendizagem – porém, no final, o que está no diploma é que o estudante tem competências naquelas áreas.
Apesar de reconhecer que há preocupação em investir na compreensão do domínio dos temas pelos estudantes, devia existir espaço para debater os assuntos com eles, dando-lhes mais tempo para discutirem, sem muletas em formato de slide (que, agora, já nem são feitos por humanos!), adotando o que antes se pedia “explique, nas suas próprias palavras”. Adicionalmente, ao apostarmos em realizar algo hands-on, mesmo que não sejam tarefas muito demoradas ou complexas mas realizadas em equipa, os estudantes vão aprender sobre o tema, sobre si e sobre a forma como conseguem ou não realizar um trabalho nesse formato. Caso contrário, “não praticou, já esqueceu”.
O “deskilling” já vem sendo referido há décadas. Em todas as gerações se perderam competências porque substituímos determinadas tarefas manuais por máquinas/tecnologia.
O tema é que agora nos estamos a demitir de pensar e continuamos a certificar aprendizagens convictos que quem pensou na resposta foi o avaliado. À mínima dúvida, colocamos a questão a uma qualquer ferramenta que nos responde em menos de segundos. Aprendemos? Não, mas a resposta seguiu… E amanhã, se tivermos a mesma dúvida, perguntamos de novo, e de novo, porque o que retemos e o que acrescentamos é quase zero. Iremos também perder a capacidade de verbalizar, de nos ligarmos às pessoas, de escrever? Já várias vezes ouvi que os juniores não acrescentam nada às empresas se não souberem mais do que as ferramentas de IA que usam.
O rei pode ter sido convencido de que estava lindamente vestido por um alfaiate. Também nós nos arriscamos a fazer o mesmo, certificando pessoas pouco preparadas: a força de trabalho mais preparada de sempre (podia ser!) mas dificilmente será a que está agora a chegar ao mercado de trabalho… eventualmente, foi a imediatamente anterior à GenAI, aos prompts, ao Notebook LM, Gemini, Canva, Claude, e todas estas facilidades de fazer o mínimo de perguntas e ter um resultado aceitável. Até pode muito bem ser a seguinte geração, aquela que se irá desenvolver quando já tivemos tempo de processar estes desafios e construir algo proveitoso – e justo – com o que está ao nosso alcance. Enquanto os estudantes do 12.º ano estão a pensar a que se devem candidatar, o Ensino Superior devia estar a discutir o muito que está ao seu alcance acrescentar.
