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Um outro ano zero

28 de março de 2026 às 08 h45

Em 1948, Roberto Rossellini filmou, numa Berlim em ruínas, um dos filmes mais impressionantes da história do cinema: Alemanha, ano zero.

O realizador italiano captou e capturou o dia a dia infernal dos habitantes de uma cidade destruída. E retratou de modo brutal os esquemas, as artimanhas, as transigências, as desistências e as traições necessárias para uma vida no limiar da viabilidade biológica.

Na incessante busca diária de um pedaço de pão, na luta insana por fragmentos de carvão, raspas de sabão ou um punhado de batatas, Roberto Rossellini desenha, num preto e branco desolado, a terra de ninguém moral, os desertos éticos individuais, a justificação cínica de homicídios por piedade, o suicídio como única saída do desespero, a prostituição como atividade de moralidade neutra. Nos destroços dos sonhos e dos desejos, o atravessar indemne, sem fome e com um abrigo precário, as longas horas dos longos dias constitui a única raison de vivre.

Em Alemanha, ano zero, não há lugar para o amor. Apenas para o tráfico do amor. Não há lugar para a vida. Apenas para o simulacro do existir.
O ano zero de Berlim e dos berlinenses de 1948 continua hoje, em cidades tornadas invisíveis, pelo excesso de luz dos jubilosos ecrãs televisivos.
Um ano zero é um ano depois de um fim. Mas não é ainda, e pode nunca o ser, o tempo de um princípio. É o lugar de todos os perigos e de todas as incertezas. E um espaço vazio de memórias e de desejos, tornados insuportáveis.

O mundo, em 2026, longe de avançar para o fim da história, projeta-se para as aventuras sem regresso.
Onde as cidades antes radiosas serão rubras cópias, a cores, da devastada Berlim, em 1948.

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